Eu me permito fluir em versos livres, e não os conduzo a uma estrutura que seja coerente em suas conexões.
Eu os deixo saltar, e ao invés de procurar estilizá-los para um determinado fim, contemplo toda sua essência tal qual se concebe.








terça-feira, 11 de dezembro de 2012

CONCORDA?


Tentamos fazer das outras pessoas um reflexo de nós mesmos. E quem, em algum momento, por menor que fosse, nunca desejou invadir o coração de outra pessoa, e fazer certos ajustes? Isso é ruim? É egoísmo? Vaidade? Desleaudade? Não! Nada disso. Isso é o desejo que as coisas encaminhem-se da melhor forma. Mas quem tem a melhor forma? Eu? Você? Nós? Dificilmente chegaremos a uma concluão que seja satisfatória a todos, mas continuemos a buscar, a tentar. Quem sabe um dia, entre tantas vontades, desejo de mudanças e adaptações, a gente se esbarre com quem amamos, em uma dessas esquinas tortas do coração.

 

RUPTURA


Fomos acordados brutalmente de nosso sonho. Estávamos seduzidos, encantados, deitados em uma rede vermelha com varanda de renda branca. O vento refrescava, nossos braços proporcionavam aquecimento mútuo, então mantinhamos o clima perfeito. Não me importa, pelo menos não mais, quem foi que nos acordou para essa realidade farsada. Importa-me sim, que eu, nem que seja nos resquícios de minha última força, ignore os invejosos e inecrupulosos, e volte a sonhar. Para tanto, é fácil, ousado, mas plenamente possível, basta não ter medo da rede e voltarmos a dormir juntos.
 


 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

PARA MATAR-ME


Começe beijando minha nuca, enquanto suas mãos delineiam meus ombros. Deixe sua respiração tocar levemente meus poros, e assim, submeta meus pêlos a ficarem na posição vertical. Diga-me meia dúzia de ilusões, a qual eu julgue verdade pelo menos por um segundo. Depois, espalhe meu cabelo com suas unhas, e venha percorrendo até chegar ao meu rosto. Quando estivermos com os olhos se enfrentando, conduza sua língua ao redor da boca, e então me embriague, motivando-me a fechar os olhos. Quando isso ocorrer, tire-me do chão, envenene-me com seu beijo e me deixe sentir o prazer de morrer em seus braços.

 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

POR QUE TE INVENTARAM?



Saudade é uma palavra que não tem gosto. É um apelo ao tempo para que apresse o seu caminhar. Saudade é chuva e neblina, com rede vazia na lembrança. Chinelos solitários na varanda. Saudade sensibiliza, te comprime o peito, te abre a mente. Saudade é oito da noite de um sábado solitário, é um caminhar na praia no fim de tarde, sem alguém para levar. É natal ...
sem ter a quem presentear. Saudade é acordar sem despertar, vestir-se sem arrumar, comer sem alimentar, viver sem acreditar. Saudade é desepero de chegada, é repudio da partida, é dor acometida. Saudade é como um caixa escupida de vontade, no qual guarda-se bilhetes que nunca mandou, mas que se deseja muito entregar. Guarda-se papel de bombom que nunca foi comido. Foto três por quatro, cartão postal, bilhete de guardanapo, pedaço de um vestido. Saudade é sonhar com a pessoa, de modo indesejado, e odiar-se por ter apenas se alucinado. Saudade te amadureçe, faz você melhorar, só não deve ser longa. É um pouco de um quase tudo, e um passo de um tudo em nada. Saudade é o que nesse momento eu não desejaria ter.
 
 

EM VOCÊ


Noite de fortuna. Riquezas da alma, das teias psicológicas. Noite de aprofundar-se em suas próprias lacunas e preenchê-las. Esvazie-se do que já não mais serve, do que um dia já te preencheu e hoje te seca, apenas. Façamos uma viagem em nós, pelas nossas veias, visitemos cada pedaço do nosso corpo. Parafraseando: Conheça-te a ti mesmo, e então escolha se amar.

 

domingo, 25 de novembro de 2012

VERTIGEM



Não faço a menor questão de ser o centro do universo, mas ser o centro de mim mesmo, dominando meu eixo, isso é indispensável. Não me envaideceria de estar ornamentado com adereços em proporções carnavalescas, mas que em mim haja pelo menos um refletir de um adorno mínimo, e que isso seja suficiente para atrair. Duvido de quem quer que ouse usar máscaras, aumentando ainda mais as, já inúmeras, possibilidades que temos de ser. Gosto de alucinações não premeditadas, desprogramadas e casuais. Contradigo alguns conceitos vãos, e detesto ser prisioneiro do tempo e das pessoas. Caminhar de pés descalços na areia beirando o mar, com cabelos soltos, coração flutuante, olhar de infinito. Gritar! Reunir amigos, rir com eles e deles. Eis o fundamental. Quanto aos embriagamentos da alma, deixo livre a musica, a pintura, e a poesia. Estes, podereis usar em abundância.


 

ENQUANTO ISSO




Pode parecer que eu olho, mas não olho não. Você pode até pensar que eu premedito, mas não premedito não. Você pode pensar que rastejo, mas não sou cobra não. Pode imaginar que ponho a faca nos pulsos, mas não sou suicida não. Pode ser óbvio pensar em te encontrar, mas isso não tem ocorrido não. Era para estar em um mar de não sorrisos, mas sorrio muito então. Não busco respostas do destino, mas você pensa que sim. Não estrategizo armadilhas, caçador é que é assim. Vivo da vontade suprema, apenas. Vivo como se nunca tivesse vivido, mas não como se não fosse viver. Ando sentindo o chão, enquanto achas que não consigo tocá-lo de tanto te querer. Na realidade algo estranho estar, onde era para estar certo, o errado parece chegar. Onde era para ser fundo, é tão raso de nadar. Acorda você, acordo eu, desfaz teu engano que eu desfaço o meu.


 

BELO



Embelezou-me o criador com palavras. Meus olhos atrentes são minhas palavras. Minha boca carnuda, meu perfil alinhando. São palavras o meu abdomen sarado, costas largas em coxas torneadas. Braços e panturrilhas definidos são as minhas palavras. Minha altura e meu bronze nada mais são do que minhas palavras. Atraia-se por mim. Imaginariamente me ame pelo que escrevo, pois restou às minhas palavras a minha beleza, e é justamente por elas que me envaideço.
 


 

 

DIFUSO




Pinguei um furtacor nos meus olhos para ver se eles reaprendem a enxergar colorido novamente. A tua decisão anulou meus colibris, e o preto e branco da decepção assumiu a linha de frente da minha visão.

 


terça-feira, 13 de novembro de 2012

ENSAIO DE VOCÊ

Deixou escorrer ao canto de sua vermelha boca, uma gota perdida de sua saliva veneno, e antes que tocasse ao chão, aparou com suas mãos de veludo, evitando o impacto. Manteve um olhar fixo, e como quem invade a alma de outro alguém, permaneceu a despir com sua visão. Astuta e audaciosa, confundia-me cada vez que me dizia culpas e confissões. O seu corpo era escultu...
ral, e suas formas e contornos, embriagavam-me, sutilmente. Suas pernas eram longíquas. E que belas pernas! Pernas que correram de mim como um diabo que foge da cruz para não queimar-se em purificação dos seus profanos pecados. Surrou a cria de nossas ilusões, e a colocou de joelhos em milhos pontiagudos. Para além do sofrimento, o rendimento de suas preces forçadas, como uma criança desentendida de infundamentada penalidade. Pobre descendência de nós dois. Ainda escuto seu choro. Ainda lamento pela a dor de ter se tornado orfã. E do alto de seu pedestal, contempla a nós, e ainda se julgas pura, imaculada, cândida.
 
 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

OLHOS CEGOS



As supostas cinzas oriundas da queima
Tornaram ainda mais cinza o antigo mundo colorido
Aliaram-se ao, não menos nebuloso, ar que nos recobre
Impedindo que reconhecesse-mos as nossas feições
Para tanto, soprei incessantemente, desejando a dissipação
No entanto, fora isto em vão! Que decepção!
...
As nunces do teu corpo ficaram difusas
E que audácia, as minhas mão intrusas
Em tocar-te veementemente, para se possível lembrar
Como era linda a imagem, que naquele instante
Já não podia mais enxergar.
 
 

ENTALO





Engoli um relógio de cúpula quebrada e ponteiros expostos.
A cada momento que se passa, e com o caminhar dos tais ponteiros, sinto ele agredir-me a garganta onde está alojado, e me sufocar literalmente a cada segundo.


 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

PSEUDOTUDO

Do alto da árvore, entre galhos já não tão floridos, ela mordeu mais uma vez aquele fruto, que antes era tão mais saboroso, e agora tornara-se uma mordida programada. Parou, olhou, refletiu. Adornou-se de dúvidas existencialmente incompreensíveis. Onde estará o encanto? - Indagou-se. Em cima, com seu olhar já não mais decisivo como antes, resolveu cuidadosamente descer...
Já não era tão atraente assim estar ali, saboreando aquilo. Apoiou-se e tentou o equilíbrio. A subida fora mais fácil. Chegou a triste conclusão de que não conseguiria descer sem saltar. Pulou então. Caiu de joelhos ao chão, e descobriu que no fim do prazer de uma subida impensada, haverá sempre a queda inevitada. Sangrou então.

 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

DE SORTE, MORRERIA




Não posso, simplesmente, resistir ao tentador desejo de me afogar em um copo de angústia. Juntar papéis e soltar versos ao vento para mendigos tão desesperados, permanecendo olhando da janela quebrada, no alto do quinto andar. Não posso! Não faz nem meia hora que me fiz juras, e agora arrependo-me de já não cumprí-las. Estou odiando ter de atravessar o corredor que conduz às extremidades do apartamento, onde cruzo com o quandro que pintamos juntos, sentados ao chão de dezembro do ano passado. Naquele dia, começamos ordenadamente, e em apenas quinze minutos de dedicação à arte, usamos os pincéis para pintar também os nossos corpos sobre o carpete vermelho da sala. Naquele momento nos sentimos os mais vadios dos poetas ousados. O suor espalhava a tinta. A gravidade ajudava. Sem falar nas mãos que traziam e levavam até o rosto, quantidades impressionantes de amor. Insuportável estar vivo para lembrar disso como defunto. Imóvel, impotente, cego. Se estar vivo é supremo, pois desta forma resigno-me em lembrar, antes, se justo fosse, de sorte morreria.

 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O DIA DA SUA MORTE



Depois de debruçar-me sequenciadas vezes sobre a minha aguda dor, no intuito fálido de abafar o grito que ela externava, arregalei os olhos vermelhos em fogo de chorar, apanhei o lenço branco enxarcado, caído ao pés, e juntei vagarosamente, uma a uma, todas as fotografias torturadoras, que outrora arrancara de mim tantas alegrias e risos excitantes. Esquentei água para fazer um café forte, preto, amargo, para manter-me acordado, se possível pro resto da vida, pois dormir tornara-se um pesadelo de memórias inquietas, que açoitavam, apunhalavam, e sangravam as feridas abertas. Tomando o café, arquitetei, por diversas vezes, planos, projetos e armadilhas. Tudo vão! Tudo inútil. O telefone ao lado, intacto, imóvel, não respondia a nenhum dos meus estímulos sentimentais. Chuva batia no telhado. Os quadros ao redor, ficaram desfigurados, e a cama, que antes era pequena, agora, tomara proporções continentais, aumentando e acentuando o vazio que existia ali. Dois travesseiros, dois pares de sonho, dois caminhos, dois projetos. Um só adeus e luto.
DESCANSE EM PAZ MEU AMOR!

 

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

DESBRAVADORES



Desbravadores dos sertões
Homens de mãos machucadas
Feridos, a alma e os tendões
Rachados os pés em terra quente pisada
Galhos secos, horizonte infindo
No meio deles um verde raro
Com o sol queimando e reluzindo
Na fé em Deus, o amparo
Cinza-marrom é o asfalto quente
Torta é a estaca fincada
Em natureza que disputa à frente
Entre velhos galhos à bicharada
No sorriso amarelado há acolhimento
De velhos sonhos ainda vivos
As rugas do rosto revelam o sofrimento
De homens sempre tão esquecidos
Conhecem como ninguém, cada passo desse chão
E os fortes que nele pisam, sem valor qualquer lhe dar
Tentam em vão roubar-lhes tudo, até o coração
Só não se pode roubar, aquilo que foi feito do amar

 

PALCO ILUMINADO



Caminho por vias transversais e contra olhares tortos
Faz parte do meu espetáculo receber saudosos aplausos,
enquanto deixo cair inevitáveis lágrimas
Na coxia, atrás do esplendor do palco, me escuto, me sufoco, me visito do alto
Antes do abrir de cortinas, sou prisioneiro de mim mesmo
E sigo me fantasiando de um outro, que por hora, também o sou
Ao encerrar de cortinas, e o apagar do último luzeiro, levo a fúria do silêncio implacável, e saio do cenário como qualquer outro espectador.

 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

VARANDA




Vivo numa perfeita solidão
E por assim ser, vivo na espera do amanhã
Mas o amanhã não chega, a solidão não vai
Existe uma profunda dor ao olhar o brilho das estrelas
sem ter outro par de mãos para juntos apontarmos
Compartilhando o uivo dos ventos ao bater janelas abertas
e o levantar de folhas secas caídas ao chão
...
Sendo como um ser proposto pela vontade maior do universo
permanecerei assim até que o amanhã resolva tornar-se hoje
e o hoje, seja então, nada mais que a lembrança de um ontem.
 
 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

PRECIPÍCIO



Ousei em pisar no último pedaço de chão
Abaixei a cabeça e olhei para a profundidade sem fim
Desequilibrei meio passo na amplidão
E logo recuei para mais perto de mim
É questão de escolha resolver saltar
Em meio ao nada profundo
Fechar os olhos e então voar
Ganhar, pelo menos uma vez, o mundo
Deixar o vento, ao cabelo, rasgar
Sentindo toda liberdade do pulo
Com o corpo mais leve, o plumar
Livrar-se, desse preso casulo
Sem amarras e nenhuma demora
Gozar de livre queda
Amenizando o peito que chora
A dor do silêncio que herda
Para os beirantes do amor
O último passo será, então, o início
Para o alívio da dor
Em queda no precipício.

 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

CARTA V- ANOITECER

AZUL MARINA

Um mergulho no envolto escuro, envolvida por água estou. Flutuante, suspensa, ligada por um fio condutor. Bem formada, detalhada, com sentidos preparados. Tracejada, delineada por traços encantados.

               Hoje está ventando muito, minhas mãos estão trêmulas e frágeis, tento reunir forças para traçar essas primeiras linhas que formam esta carta, a quinta carta. O meu corpo está cansado e com algumas dores quase insuportáveis. É noite, estou sentada na minha varanda, então resolvi quebrar, com uma música baixinha, o silêncio solitário que estava aqui. No chão, ao meu lado, uma velha garrafa de vinho aberta e um álbum de fotografias, velhas fotografias de pessoas novas.

                Nesta quinta carta, viajaremos pela linha da minha história, relembrando, recontando, e fazendo algumas leves pausas em momentos vividos. Entre uma foto revista e um gole bebido, sempre uma nova memória.

                Lembro-me perfeitamente como se fosse hoje, a primeira vez que a vi, ela aparentava ter uns dezoito anos, sempre com aquele vestido azul celeste, com a feição e semblante serenos. Uma voz suave e envolvente como as águas, que prendia minha atenção sempre que me falava. No dia em que nos conhecemos, eu havia acabado de entrar no quarto chorando, e na cama, tinha me enrolado com o lençol.

Por que está chorando?
−Quem é você?
−Uma amiga. Mas conte-me, por que esta chorando?
−Porque meus pais não gostam mais de mim.
− Isso não é verdade, eles amam você.
− Você conhece eles?
− Não muito, mas basta olhar ao seu redor, tanta coisa bonita, tantos brinquedos! E esse retrato que lindo! Onde foi?
− Foi no meu aniversário.
− Quem são esses?
− Esses aqui são meus amigos, essa aqui minha vó, esse aqui...


                  Ela me fez sentir amor novamente e me confortou, era madrugada e ela me pediu que pegasse papel e lápis, disse que deseja que eu escrevesse uma carta. Franzi a testa e falei que não saberia fazer, então ela colocou sua mão sobre a minha, começou a fazer os primeiros traços sobre o branco papel, em uma letra alinhada e tão bonita, que até hoje não vi igual. Em alguns minutos a carta estava pronta, ela disse que tinha de ir, e que era para eu dar um nome a esta carta, que através das minhas mãos, ela havia escrito.

                Quase não dormi naquela madrugada, depois de um tempo ela se foi. O escuro me incomodou e o medo me apavorou profundamente.  Em uma quebra de braços entre meus anseios e eu, venceu o sono que me tomou, e sem resistência, apossou-se de mim logo após.

                No dia seguinte, imaginei que tinha sonhado tudo aquilo, toda aquela fantasia, mas a carta estava lá, em baixo do travesseiro, esperando que eu desse um nome a ela. Foi o que fiz! Dei-lhe o nome de madrugada, por ter sido esse momento em que ela fora escrita.

                Esperei ela aparecer no dia seguinte, e... Nada! E nos outros dias, e semanas, e meses, anos, até que a esqueci, e já não esperava mais seu retorno.

                Sua primeira visita foi na minha infância, e infância é madrugada acompanhada de muitos pensamentos, de imaginação, de medo, sombras e apreensões.


***


                Passou-se muito tempo após aquela visita, e na exata manhã que completei quinze anos, acordei com um tanto de sonolência. Entre meu abrir de olhos a vi sentada no canto da cama, então tomei um susto tão grande que saltei apressadamente. Ela me olhou bem nos olhos e disse:

− Feliz aniversário!
− Eu pensei que você era apenas fruto da minha imaginação, e além do mais você aparece assim do nada, tomei um susto e...
−Acalme-se. É normal que esteja assim, faz tempo que não nos vemos.
−Afinal o que é você?
−Não desejas reformular a pergunta? Pois o importante não é o que somos e sim quem nós somos.


                A resposta dela provocou certo desconcerto, e mais desconcertada ainda, era minha visível surpresa em vê-la do mesmo jeito, com os mesmos traços, e o mesmo brilho. Como se ela não envelhecesse. Olhando-a profundamente, continuamos nossa conversa.


−Você não envelheceu. Está do mesmo jeito e aparência da outra vez.
− O maior crescimento não é o que os olhos podem ver, mas o que o coração pode sentir. Esse crescimento é pleno, pois irradia para a eternidade o melhor que temos.
− Você fala de um jeito, que às vezes me confunde. Mas gosto de você. Sinto mais uma vez a mesma paz que senti naquele dia.
− Somos transportadores da paz, e devemos sempre levá-la conosco, deixando um pouco dela com o outro, para assim, fazer crescer ainda mais em nós mesmos.



                Enquanto conversávamos, eu tentava entendê-la, desvendá-la. Tinha muitas perguntas a fazer. Tantas dúvidas, curiosidades. Saímos para o quintal e ela me entregou uma caixa azul, disse que era meu presente. Dentro tinha uma folha retangular branca, foi então que me lembrei da carta que havíamos escrito quando eu ainda era criança.

                Mais uma vez ela me sugeriu que escrevesse uma carta, afirmando que era preciso fazermos algumas outras depois. Eu neguei, devolvi a caixa azul que ela me presenteara, e disse que não entendia tudo aquilo.

                Ela apontou para o céu azul daquela manhã, e me falou:

− Lembra o dia em que você ficou olhando atentamente para lá? Você sempre se sentiu diferente das outras pessoas, e pra dizer a verdade você é! Sempre abri sua alma para contemplar a grandeza da criação, notando as esferas invisíveis que existem lá. Somente pessoas sensíveis e possuidoras de uma essência apurada, conseguem enxergar, pois possuem percepção e abertura para coisas superiores que muitas vezes são incompreensíveis.

               
                Sem muitas palavras, diante de uma definição tão certa sobre mim, concordei gesticulando com a cabeça em sinal de afirmação. Fiquei de costas para ela, pois desejei olhar mais uma vez o céu, e ela continuou:

− No fundo você sabe que possui uma imensa vontade de transmitir para outras pessoas, um pouco de tudo que você acredita, e você não ficará indiferente.  Aqui está a caixinha e o papel dentro, e já que está olhando para o céu, escreva mais uma vez. Coloquemos nesta carta, algo que você sente a necessidade de dizer, como se tivesse urgência em levar para o maior número possível de pessoas uma mensagem.



                Não tinha como negar, eu realmente sentia-me atraída a fazer o que ela me propunha. Ela pôs sua mão sobre a minha, e sem titubear, escrevemos aquela segunda carta enquanto o tempo ia passando naquela linda manhã. Após concluirmos, perguntei-lhe o que eu deveria fazer com a outra e com aquela que acabáramos de fazer. Falou-me que eu deveria juntá-las e colocar as duas dentro da caixa azul, e ler elas, quando por algum motivo, algo me quisesse fazer ser quem não sou.

                Seguindo a mesma lógica da primeira, nomeei a segunda, dei-lhe o nome de amanhecer. Dar nome as coisas ajuda a personalizá-las, entendê-las e organizá-las, E como fora orientada, guardei as duas na minha caixa azul que ganhara de presente.


***


                As cartas que havíamos escrito, foram base para a minha vida, e como ela tinha dito, sempre que necessário, lia as cartas e me fortalecia. Mantive-as em segredo, e enquanto atravessava os anos da minha adolescência, me perguntava se ainda iria encontrar aquela moça mais uma vez.

                Descobri o sabor agridoce da paixão e suas múltiplas aparições e intensidade. Gritei, chorei, explodi. Às vezes escutava a mesma música umas vinte vezes, e através dela, me transportava para outras galáxias, e que por solidão desejei habitá-las.

                Mordi a maçã do amor e senti seu sabor escorrer pelos dentes, e segurando ela na palma da mão, inocentemente, acreditei que tinha algum controle sobre ela. Mesmo sabendo que algo poderia dar errado, não hesitava em correr certos riscos, entre o levantar da mão e a mordida.

                Em um sábado, aproximadamente ao meio dia, passando em frente ao passeio público, decidi entrar e sentar um pouco, estava com vontade de refletir  e descansar, e nada melhor que uma praça arborizada, e fresca pela brisa do mar que está ali pertinho.

                O banco de madeira e cor esverdeada, não tinha ninguém, sentei-me no canto esquerdo, bem embaixo de um majestoso pé de fícus. Mais a frente tinha um palhaço que declamava em alta voz algumas POESIAS de Drummond, quebrando totalmente a ROTINA daquele lugar, e sem deixar lacunas, mantendo uma SUCESSIVIDADE, declamava inúmeros poemas em exaltação a SAUDADE, e como se fosse um grito INCOMENSURÁVEL de LIBERDADE, propunha um encontro com um belo, o formidável, e mostrando-se NAUSEABUNDO à infelicidade.

                Enquanto ouvia as poesias e me deixava levar pela beleza delas, entreguei ao palhaço, os ouvidos, e ao mar, os olhos, durante alguns longos segundos. Quando me voltei para outro ladoqu e estava vazio, vi uma pessoa caminhando em minha direção, enquanto o sol desfigurava sua imagem na minha visão, ao se aproximar. Sentou-se ao meu lado, e quando finalmente saiu da luz, desvendei-lhe. Era a mesma moça que me visitara outras duas vezes, estava com o mesmo vestido azul, com o mesmo semblante e jovialidade, e dessa vez trazia uma exuberante rosa vermelha.

                Trocamos um silêncio de respostas às perguntas feitas, apenasn o calar das vozes, e enquanto ela me entregava a rosa vermelha, junto a outra folha em branco, o palhaço olhava-nos de longe.

                Ela perguntou como eu estava, embora soubesse da resposta, desejou ouvir de mim, enquanto segurava a minha mão, sugerindo que deveríamos escrever. Disse-me que era minha amiga, e que o tempo estava passando muito rápido. Perguntei onde ela morava, e ela me respondeu que morava em um lugar onde somente os bons corações podem chegar.

                A rosa − disse ela − era o símbolo da beleza, do sentimento nobre. O perfume era a essência invisível, e que mesmo com espinhos não deixava de ser bela, igualmente ao verdadeiro amor.

                Muitas vezes eu não sabia nem como continuar a conversa, pois ela falava de um jeito tão estranho. O que mais me inquietou, naquele início de tarde, foi sua resposta quando perguntei:

− De onde você é?
− Fui de um tempo muito longe, deste mesmo lugar, e enfrentei a barbárie em um tempo ruim e desastroso dos homens. Hoje eu sou de um lugar iluminado e puro.
− Quer dizer que você já morreu?
− Carnalmente sim! Mas espiritualmente não. Somos como o vento, pois sempre existiremos e seremos sentidos, embora os olhos não possam ver.
− Por isso você não envelhece. Ai meu Deus! Eu, eu...pensei que..
− Não tenha medo! Você já esteve onde estou, apenas não lembra.
− Quantas vezes você irá vir ainda?
− Outras duas. Agora devo ir. Guarde esta outra carta na mesma caixa azul e não deixe de ler quando se sentir só. Ah, e dê um nome a ela.


                Outra vez ela se foi, e me deixou com um milhão de pensamentos e perturbações, e para completar ainda estava com desamparo emocional. Mesmo com tanta confusão na minha cabeça, olhei fixamente, durante um bom tempo, para um casal que ali estava. Segurei a carta, dei-lhe o nome de meio dia, e trouxe-a comigo.


***


                No auge dos meus quarenta anos, após casar, ter filhos e um bom emprego, costumava ficar na janela do meu modesto apartamento, nos fins de tarde, escutando Elis, Jobim e Fagner, olhando para a verticalizada Fortaleza, enquanto os garotos lá em baixo exalavam energia e vitalidade.

                As canções que ouvia não me levavam as feridas abertas, mas ajudavam a cicatrizá-las, pelo poder da memória e da capacidade de me conduzir a minha juventude.

                Em mais um fim de tarde, escutando aquelas mesmas músicas, e deixando-me levar pelas ondas das recordações, ouvi outra vez aquela voz me falar:

− És jovem e tens muita vida, não podes perder a alegria de viver!
− O costume me conduziu aos mesmos hábitos.
− Você é personagem principal de sua vida, inevitavelmente o tempo passa.
− Os erros não deixaram de existir.
− O que passou, certamente não voltará, mas todos os dias você poderá recomeçar, e construir um novo caminho para seguir.


                Então ela me levou até a janela e me mostrou o horizonte rasgado pelas pessoas na rua, jovens, velhos, crianças.

− Fazemos parte de um ciclo infinito que se propaga de eternidade em eternidade, e faz parte do crescimento não deixar-se abater pela falsa sensação de fraqueza e impossibilidade. Olhe! Veja todos eles, você faz parte disso, todos nós fazemos!
− Mas você não entende, está sempre com a mesma aparência!
− Deixe-me contar pra você um pouco da minha história. Quando estive aqui, o meu maior sonho era ajudar as pessoas, e tentar curá-las de alguma forma. Tornei-me enfermeira e após atuar pouquíssimo tempo aqui, me alistei para ir a um país distante que tinha muitos feridos. Estávamos em mais um período de discórdia e erro, ao que chamamos de Segunda Guerra Mundial, e o Brasil mandara mulheres para ajudar aos soldados feridos.
− Quer dizer que você esteve na Segunda Guerra Mundial? Meu Deus, que loucura!
−Estive, era algo triste, doentes e feridos entrando toda hora, sem medicamentos nem macas, tínhamos que colocá-los em lonas, e às vezes no chão.
− Que triste! Deve ter sido horrível!
− Foi sim, fui incansável até o dia em que...
− Em que o quê?
− Um helicóptero de guerra lançou uma bomba sobre a tenda em que estávamos e matou a todos nós: feridos e sãos.



                Lágrimas caíram do meu rosto como se de dentro da minha alma tivessem saído, e logo senti um entalo na garganta, como se a voz estivesse presa, por imaginar aquele lamentável momento. Disse a ela que esperasse um pouco, pois iria até o quarto buscar uma folha de papel para mais uma vez escrevermos, o que seria a quarta carta.

                Quando retornei, ela mandou que eu descesse e fosse respirar um pouco daquele vento do fim de tarde, e que quando eu retornasse iríamos escrever. Fiz desta forma e escrevemos aquela carta, ao qual nomeei de fim de tarde, e logo após concluir, ela se foi outra vez e disse que sua última visita seria no dia em que eu iria partir.

                Então tornei a escutar as minhas velhas e boas músicas enquanto o sol já despontava lá no fim, e a noite invadia devagarzinho cada pedaço desse lado do hemisfério.

                Suas visitas sempre eram em momentos específicos e difíceis, me visitou na infância, na adolescência, na juventude, na maturidade, e disse que me visitaria pela última vez no dia exato que eu partisse, entendi que seria na minha velhice.

                Foi uma viagem de longos anos, sublime por toda a benevolente essência absorvida. Entre risos lacrimejados e lágrimas sorridentes, encontros comigo e desencontro casuais, para em outro momento me reencontrar com a áurea puramente cândida.

                Já faz alguns anos que chegou minha velhice, e tenho que confessá-los uma coisa: Hoje ela me visitou! Sem muitas palavras trouxe-me um conforto incrível e disse que eu deveria me apressar em escrever esta última carta, pois partiríamos, acrescentou que desta vez quem deveria escrever era apenas eu, sem o intermédio de sua mão sobre a minha.

                Chegou a minha hora, já anoiteceu e devo-lhes responder quem sou. Eu sou você! Sou seu ciclo de vida desde a infância até a velhice.  Sou uma ponta da vida, desde a sua concepção até outro ponto que é o início para uma nova concepção.

                E antes que partíssemos, segurando as minhas mãos, ela me respondeu minha última pergunta:

− Já que é chegada minha hora, responda-me. Afinal, qual o seu nome?
              
                Então, ainda com o vestido e olhos azuis, serenamente ela me respondeu:
− Marina, meu nome é Marina.



UMA OBRA DE TONI MARINHEIRO


terça-feira, 31 de julho de 2012

CARTA IV- FIM DE TARDE


AZUL MARINA


− Levanta bem alto e segura na ponta!
− Assim tá bom?
− Tá! Agora espera o vento vir. Quando eu gritar tu solta, certo?
− Certo
− Lá vem. Solta vai!

...

                Fim de tarde é a hora que os garotos ganham as ruas de bairro e aproveitam para extravasar toda a energia que eles possuem. É hora de a agulha embolar-se para formar o crochê das senhoras que ficam sentadas no lado da sombra, jogando conversa fora com assuntos descompromissados, rotineiros. Mais á frente ficam os senhores, formando um quadrado, com uma tábua sustentada pelas pernas para dar base ao velho jogo de dominó.

                O vento fresco do fim da tarde reúne toda a vizinhança nas calçadas, uns com preguiçosa, alguns em banquetas plásticas, e outros sentados naqueles bancos feitos de cimento, recostados sobre a parede.  Bolinhas de sabão estouram ao tocar os fios de energia, e o chão, em baixo do pé de jambo, fica rosado das flores que caem. Meninos malinos, riscam o asfalto com pedaços de gesso, fazendo dele, um painel de imaginação. 

                À tardinha, sempre tem crianças banhadas e bem vestidas, sentadinhas e entretidas com a magia de seus brinquedos, olhando seus irmãos um pouco maiores, se esgoelarem, enquanto correm loucamente de pés descalços, brincando de sete pecados, ou ficam paralisados, aguardando alguém tocar-lhe no joão a cola.

                Meio retraídos, ao canto, ficam os adolescentes de doze e treze anos, tímidos.  Os meninos trocam olhares com as meninas, e vice versa. É época de empurrar o amigo em cima de quem ele gosta e deixar o coitado todo errado, desconcertado.  E para completar tem sempre alguém que revela o grande segredo, e conta pra pessoa que se está apaixonado. Hora de negar até a morte. Beleza da inocência.

...

− Soltei! Agora corre, corre!
− Tô correndo, mas não ta subindo.
− Da mais linha que sobe.
− Não tá subindo, o vento tá fraco.
− Enrola o carretel, a gente tenta de novo.

...

                Cada passo que damos na estrada da vida, além de deixarmos nossas pegadas, levamos ainda, um pouco de areia nos pés. Essas areias são fragmentos, momentos e decisões escolhidas, consciente ou inconscientemente. Formam bases de reconstrução de nossos conceitos e nos permite fazer uma análise rápida, involuntária e fotográfica, como se pudéssemos, ás vezes sem querer, voltar ao exato momento da lembrança, passeando pelo tempo da memória.

                As nossas memórias não são apenas próximas ou remotas, são também cicatrizes, que fincam nossa história. Elas nos norteiam em decisões a serem tomadas, ou nos massacra com culpas e acusações.

                Cada um carrega consigo uma bagagem, que pode ser tão leve como uma pluma, ou tão pesada como um fardo. São cargas de emoções, ressentimentos, lágrimas e sorrisos. Pessoas que entraram, saíram, ou permaneceram em sua vida, e mais além, pessoas ao qual nunca se conheceu, mas que foram projetadas pelo instinto do desejo não visto em outro alguém.

                Culpas e massacres da alma, aliados a falta de auto perdão e travas de traumas e medos, formam uma linha áspera e pontiaguda que, além de ferir, encarcera e aprisiona os aflitos que delas possuem. São causadores de desordem mental e desequilíbrio emocional. Levam pouco a pouco, e sorrateiramente, a sintomas depressivos e a máculas sentimentais. Não podemos deixar-nos ser algemados pela nossa culpa, e pelo fracasso. Somos humanos e devemos nos reconhecer como falhos, porém capazes de reconstruir sistemas, quantas vezes forem necessárias.

                Se de um emprego fora demitido, ou de um relacionamento abandonado, deve se sentir a dor desta perda, mas não viver em função dela. É natural que se lamente e se cobre, a princípio, mas é necessário deixar para trás, aquilo ao qual ao passado pertence, e assim, seguir com toda a experiência que a perda te trouxe.

                A dor de sepultar velhos sentimentos e antigos apegos, bem como a responsabilidade sobre algo que não deu certo, é feroz e insuportável, porém não se pode tentar ressuscitar defuntos, nem ao pouco enterrar-se com eles. Aprenda a saudar com adeus e deixar que o que se foi, se vá livre, e livre permaneça você também, pela força da decisão de deixar ir. O que morre, parte para outro nível, e abre espaço para a chegada do que nasce.

                Deve ser um exercício diário, a análise profunda de sua vida e suas decisões, não para culpá-las ou justificá-las, mas para entender quais foram os pilares escolhidos na sustentação daquele caminho. E revendo suas escolhas, extraia o sumo delas, conservando as boas, descartando as ruins, melhorando e crescendo.

...

− Segura direito!
− Pode deixar. Presta atenção pra dessa vez dá certo.
− Quando eu gritar tu solta.
- Tá.
− Tá vindo, tá vindo! Solta vai!
− Corre! Corre! Tá subindo, continua vai. Dá mais linha!
− Uhuuuuuu! Subiu!
−Eita, tá bem altona! Deixa eu dá um lanceio?

...

                Para chegarmos aos nossos objetivos, precisamos de estratégias, e acima de tudo persistência para alcança-los. Não podemos desistir na primeira frustração, pois acredite, o vento da vida vai derrubar várias vezes a pipa dos teus sonhos, e nem por isso você deve desistir de colocar ela no ar, livre, exuberante, bela.

                Lembre-se que você tem uma pipa e um carretel de linha nas mãos. A pipa é tudo o quanto você deseja, acredita e espera, remete aos teus pensamentos, conceitos e ideais. O carretel é a possibilidade de distância que você pode dar, é o controle de intensidade que você tem. A pipa e a linha estão aí! Mas não se solta pipa dentro de casa. É fim de tarde e o vento saudoso te espera lá fora para você arriscar soltar a pipa. E ela só irá subir se você tirar o peso das pedras que podem estar amarradas a ela, deixe-a leve, sublime, e delicada.

                Junte-se aos garotos na rua, no fim de tarde. De pés descalços mesmo, sentindo o chão que pisa, e correndo por todos os lados. Divirta-se sem pudor, ou preconceitos.  Tente quantas vezes forem necessárias, mas só volte para casa, quando tiver contemplado a pipa no ar, se perdendo bem pequenininha no imenso quadro azul chamado céu.
                Quando você se der conta do quanto foi bom viver esta experiência, libertando-se de pesos altamente desnecessários, o sol já terá ido embora, e o cenário terá sido modificado, afinal, será início de noite, as luzes dos postes estarão acesas, e o ritmo da cidade, desacelerado. Então você se reconhecerá novamente, reunirá o desfrute de momentos de pura libertação pessoal, e receberá a noite de uma forma diferente, mas aí já é outra história, que você brevemente descobrirá.

terça-feira, 24 de julho de 2012

CARTA III- MEIO-DIA

 AZUL MARINA



               Era aproximadamente meio dia, à sombra de um refrescante pé de ficus e afagada pela brisa do atlântico, observava o céu aberto, sem nenhuma nuvem, beijando o mar, compondo um exuberante cortinado. Leves brumas enfeitando o caminho, e ao longe, crianças correndo com seus atenciosos pais.

                O conhecido verde mar, migrara para um turquesa azul, e como um espelho, refletia a ofuscante luz do sol que lhe batia. Fiquei por muito tempo observando todo aquele movimento, do vento nas plantas, dos risos das pessoas, e dos fartos e descontraídos momentos de alegria. Lembrou-me uma sinfonia, cada um com seu som, sua forma, sua peculiaridade.

                Estava no passeio público, e fui invadida por uma sensação de liberdade, despreocupação e nada a fazer. Clima perfeito para apaixonados, amigos e poetas.

                Falando em apaixonados... Admiro os apaixonados! Aqueles que curtem estar apaixonados sejam, por outro alguém ou por alguma coisa, um sonho, uma possível aquisição. Paixão é intensidade, adrenalina, aventura. Não a julgo ruim, apenas passageira. No entanto, às vezes é porta de entrada para outros sentimentos como o amor e amizade, por exemplo.

                Paixão é como chama, e nós, somos como velas possuidoras de uma essência que é o pavio, que nos percorre. A chama na vela acesa pode durar até o fim, mas basta um assopro para a chama apagar. Assim também é a paixão. Tão imprevisível, inesperada, imprudente.

                Não sou guru, muito menos mentora, mas gosto de dar conselhos e ao contrário do que dizem, podem ser muito bons. Bom é curtir sua paixão, ou suas paixões. Viver o momento mágico de estar apaixonado, aquele que a gente perde a vontade de comer, ri da própria queda, dá bom dia a desconhecidos e vive no mundo da lua. Sabe aquele momento que você fica se balançando na rede, lembrando-se daquela pessoa e pedindo para o relógio correr? É o auge da paixão. E referente a ela, não se pode medir o tempo e a intensidade, mas pode-se viver e saber tudo no final. Então vamos assumir nossas paixões, sem cobrar que sejam eternas. Pois não serão, a não ser em nossa memória.

                Muitos dizem que estão em busca apenas de amor, que acham a paixão algo banal. Que tolos! Provavelmente já se apaixonaram umas vinte vezes e não se dão conta, ou não se permitem. Não digo que alguém que viva apenas de paixão, seja uma pessoa completa, porém quem muito se apaixona, muito se conhece, e descobre as coisas que a agradam e as personalidades que a atraem.

                Não aparente alguém diferente do que almejas ser, entrando em lugares, não olhe se não quiseres ver. Não se apresse, ao contrário, sossega teu ímpeto medo e guarda a força da tua minúcia, revela as paixões que desejas e grita ao mundo a tua denúncia.

                Acredito no amor como sentimento mais forte e real que existe. O amor é transformador de cenários, é como vento no deserto que modela as paisagens áridas, às vezes refresca e alivia, outras vezes invade como tempestades de areia. Nunca é desprezível, mesmo em situações adversas. Deve ser compreendido e delineado sabiamente por aqueles que verdadeiramente o possuem.

                O amor é prova da supremacia e da ordem de natureza superior. Quebra-cabeças colorido com peças difíceis de montar. Precisamos entendê-lo e principalmente senti-lo. Não pode ser frustrado jamais, pois como mola, a vida o impulsionará novamente, mais cedo, ou mais tarde. Respeite o amor seu e do outro, afinal o do outro pode ser para com você.

                A sombra do pé de fícus já se afastara um pouco, e o calor do sol já podia ser sentido mais fortemente. Entre os feixes de luz e giros de pensamentos, vi um casal de aproximadamente vinte anos sentados em um banco, distantes de mim uns dez metros.

                Mesmo ao longe, prendi-me ao detalhe dos dedos entrelaçados que uniam as palmas das mãos, junto a isso, simetricamente trocavam olhares cheios de vontade e de presença. Não falavam muito um com o outro. Talvez estivessem tímidos por ser algo novo, ou então estavam se redescobrindo. Continuei a olhar mais alguns segundos e me desviei para as borboletas que pousaram perto deles, e ali ficaram imóveis durante muito tempo.

                Na vida de todo casal existem borboletas leves e delicadas. Essas borboletas são aquelas pessoas que são como ombros e ouvidos, presentes na pior das ausências. Cuide delas e zele pela beleza da sua existência. Quando estiver enfeitiçado e no mundo da lua, pela maravilha dos beijos e carícias, não se esqueça das borboletas. Não as prendam em cúpulas indestrutíveis, e nem as visite apenas na dor. Assim como borboletas, essas pessoas são lindas, encantadoras, e são ainda, sensíveis e delicadas.

                Cultive o jardim da amizade, mesmo quando o amor e a paixão estiverem às mil maravilhas, e curta ao máximo suas borboletas, passei com elas, deixe-as pousar livremente em sua vida e ofereça colo. Desta forma, a felicidade te encontrará mais brevemente.

                Durante todo o tempo que estive ali, a cena das borboletas imóveis e próximas ao exuberante casal, foi sem dúvidas o que mais me inquietou. As reflexões provocadas em mim foram tão envolventes que nem percebi o tempo passar.

                Desejei congelar aquele instante e mergulhar no mais profundo espiral de minha mente, no entanto o sol já estava muito aquecido, foi hora de se despedir e aguardar o que ainda iria vir, e por hora, fiquei com o azul das borboletas que voaram até a mim.