AZUL MARINA
Um mergulho no envolto escuro, envolvida por
água estou. Flutuante, suspensa, ligada por um fio condutor. Bem formada,
detalhada, com sentidos preparados. Tracejada, delineada por traços encantados.
Hoje está
ventando muito, minhas mãos estão trêmulas e frágeis, tento reunir forças para
traçar essas primeiras linhas que formam esta carta, a quinta carta. O meu
corpo está cansado e com algumas dores quase insuportáveis. É noite, estou
sentada na minha varanda, então resolvi quebrar, com uma música baixinha, o
silêncio solitário que estava aqui. No chão, ao meu lado, uma velha garrafa de
vinho aberta e um álbum de fotografias, velhas fotografias de pessoas novas.
Nesta quinta
carta, viajaremos pela linha da minha história, relembrando, recontando, e
fazendo algumas leves pausas em momentos vividos. Entre uma foto revista e um
gole bebido, sempre uma nova memória.
Lembro-me
perfeitamente como se fosse hoje, a primeira vez que a vi, ela aparentava ter
uns dezoito anos, sempre com aquele vestido azul celeste, com a feição e
semblante serenos. Uma voz suave e envolvente como as águas, que prendia minha
atenção sempre que me falava. No dia em que nos conhecemos, eu havia acabado de
entrar no quarto chorando, e na cama, tinha me enrolado com o lençol.
−Por que
está chorando?
−Quem é
você?−Uma amiga. Mas conte-me, por que esta chorando?
−Porque meus pais não gostam mais de mim.
− Isso não é verdade, eles amam você.
− Você conhece eles?
− Não muito, mas basta olhar ao seu redor, tanta coisa bonita, tantos brinquedos! E esse retrato que lindo! Onde foi?
− Foi no meu aniversário.
− Quem são esses?
− Esses aqui são meus amigos, essa aqui minha vó, esse aqui...
Ela me fez sentir amor novamente e me confortou, era madrugada e ela me pediu que pegasse papel e lápis, disse que deseja que eu escrevesse uma carta. Franzi a testa e falei que não saberia fazer, então ela colocou sua mão sobre a minha, começou a fazer os primeiros traços sobre o branco papel, em uma letra alinhada e tão bonita, que até hoje não vi igual. Em alguns minutos a carta estava pronta, ela disse que tinha de ir, e que era para eu dar um nome a esta carta, que através das minhas mãos, ela havia escrito.
Quase não dormi naquela
madrugada, depois de um tempo ela se foi. O escuro me incomodou e o medo me
apavorou profundamente. Em uma quebra de
braços entre meus anseios e eu, venceu o sono que me tomou, e sem resistência,
apossou-se de mim logo após.
No dia seguinte, imaginei que
tinha sonhado tudo aquilo, toda aquela fantasia, mas a carta estava lá, em
baixo do travesseiro, esperando que eu desse um nome a ela. Foi o que fiz!
Dei-lhe o nome de madrugada, por ter sido esse momento em que ela fora escrita.
Esperei ela aparecer no dia
seguinte, e... Nada! E nos outros dias, e semanas, e meses, anos, até que a
esqueci, e já não esperava mais seu retorno.
Sua primeira visita foi na minha
infância, e infância é madrugada acompanhada de muitos pensamentos, de
imaginação, de medo, sombras e apreensões.
***
Passou-se muito tempo após
aquela visita, e na exata manhã que completei quinze anos, acordei com um tanto
de sonolência. Entre meu abrir de olhos a vi sentada no canto da cama, então tomei
um susto tão grande que saltei apressadamente. Ela me olhou bem nos olhos e
disse:
− Feliz
aniversário!
− Eu
pensei que você era apenas fruto da minha imaginação, e além do mais você
aparece assim do nada, tomei um susto e...−Acalme-se. É normal que esteja assim, faz tempo que não nos vemos.
−Afinal o que é você?
−Não desejas reformular a pergunta? Pois o importante não é o que somos e sim quem nós somos.
A resposta dela provocou certo
desconcerto, e mais desconcertada ainda, era minha visível surpresa em vê-la do
mesmo jeito, com os mesmos traços, e o mesmo brilho. Como se ela não
envelhecesse. Olhando-a profundamente, continuamos nossa conversa.
−Você não envelheceu. Está do mesmo jeito e aparência da outra vez.
− Você fala de um jeito, que às vezes me confunde. Mas gosto de você. Sinto mais uma vez a mesma paz que senti naquele dia.
− Somos transportadores da paz, e devemos sempre levá-la conosco, deixando um pouco dela com o outro, para assim, fazer crescer ainda mais em nós mesmos.
Enquanto conversávamos, eu
tentava entendê-la, desvendá-la. Tinha muitas perguntas a fazer. Tantas
dúvidas, curiosidades. Saímos para o quintal e ela me entregou uma caixa azul,
disse que era meu presente. Dentro tinha uma folha retangular branca, foi então
que me lembrei da carta que havíamos escrito quando eu ainda era criança.
Mais uma vez ela me sugeriu que
escrevesse uma carta, afirmando que era preciso fazermos algumas outras depois. Eu neguei, devolvi a caixa azul que ela me presenteara, e disse que não entendia
tudo aquilo.
Ela apontou para o céu azul
daquela manhã, e me falou:
− Lembra o
dia em que você ficou olhando atentamente para lá? Você sempre se sentiu
diferente das outras pessoas, e pra dizer a verdade você é! Sempre abri sua
alma para contemplar a grandeza da criação, notando as esferas invisíveis que
existem lá. Somente pessoas sensíveis e possuidoras de uma essência apurada, conseguem
enxergar, pois possuem percepção e abertura para coisas superiores que muitas
vezes são incompreensíveis.
Sem muitas palavras, diante de
uma definição tão certa sobre mim, concordei gesticulando com a cabeça em sinal
de afirmação. Fiquei de costas para ela, pois desejei olhar mais uma vez o céu,
e ela continuou:
− No fundo
você sabe que possui uma imensa vontade de transmitir para outras pessoas, um
pouco de tudo que você acredita, e você não ficará indiferente. Aqui está a caixinha e o papel dentro, e já
que está olhando para o céu, escreva mais uma vez. Coloquemos nesta carta, algo
que você sente a necessidade de dizer, como se tivesse urgência em levar para o
maior número possível de pessoas uma mensagem.
Não tinha como negar, eu
realmente sentia-me atraída a fazer o que ela me propunha. Ela pôs sua mão
sobre a minha, e sem titubear, escrevemos aquela segunda carta enquanto o tempo
ia passando naquela linda manhã. Após concluirmos, perguntei-lhe o que eu
deveria fazer com a outra e com aquela que acabáramos de fazer. Falou-me que eu
deveria juntá-las e colocar as duas dentro da caixa azul, e ler elas, quando por algum motivo, algo me quisesse fazer ser quem não sou.
Seguindo a mesma lógica da
primeira, nomeei a segunda, dei-lhe o nome de amanhecer. Dar nome as coisas
ajuda a personalizá-las, entendê-las e organizá-las, E como fora orientada,
guardei as duas na minha caixa azul que ganhara de presente.
***
As cartas que havíamos
escrito, foram base para a minha vida, e como ela tinha dito, sempre
que necessário, lia as cartas e me fortalecia. Mantive-as em segredo, e enquanto
atravessava os anos da minha adolescência, me perguntava se ainda iria
encontrar aquela moça mais uma vez.
Descobri o sabor agridoce da
paixão e suas múltiplas aparições e intensidade. Gritei, chorei, explodi. Às
vezes escutava a mesma música umas vinte vezes, e através dela, me transportava
para outras galáxias, e que por solidão desejei habitá-las.
Mordi a maçã do amor e senti seu
sabor escorrer pelos dentes, e segurando ela na palma da mão, inocentemente,
acreditei que tinha algum controle sobre ela. Mesmo sabendo que algo poderia
dar errado, não hesitava em correr certos riscos, entre o levantar da mão e a
mordida.
Em um sábado, aproximadamente ao
meio dia, passando em frente ao passeio público, decidi entrar e sentar um
pouco, estava com vontade de refletir e
descansar, e nada melhor que uma praça arborizada, e fresca pela brisa do mar
que está ali pertinho.
O banco de madeira e cor
esverdeada, não tinha ninguém, sentei-me no canto esquerdo, bem embaixo de um
majestoso pé de fícus. Mais a frente tinha um palhaço que declamava em alta voz
algumas POESIAS de Drummond, quebrando totalmente a ROTINA daquele lugar, e sem
deixar lacunas, mantendo uma SUCESSIVIDADE, declamava inúmeros poemas em exaltação
a SAUDADE, e como se fosse um grito INCOMENSURÁVEL de LIBERDADE, propunha um
encontro com um belo, o formidável, e mostrando-se NAUSEABUNDO à infelicidade.
Enquanto ouvia as poesias e me
deixava levar pela beleza delas, entreguei ao palhaço, os ouvidos, e ao mar, os
olhos, durante alguns longos segundos. Quando me voltei para outro ladoqu e
estava vazio, vi uma pessoa caminhando em minha direção, enquanto o sol desfigurava
sua imagem na minha visão, ao se aproximar. Sentou-se ao meu lado, e quando
finalmente saiu da luz, desvendei-lhe. Era a mesma moça que me visitara outras
duas vezes, estava com o mesmo vestido azul, com o mesmo semblante e jovialidade,
e dessa vez trazia uma exuberante rosa vermelha.
Trocamos um silêncio de
respostas às perguntas feitas, apenasn o calar das vozes, e enquanto ela me entregava
a rosa vermelha, junto a outra folha em branco, o palhaço olhava-nos de longe.
Ela perguntou como eu estava,
embora soubesse da resposta, desejou ouvir de mim, enquanto segurava a minha
mão, sugerindo que deveríamos escrever. Disse-me que era minha amiga, e que o
tempo estava passando muito rápido. Perguntei onde ela morava, e ela me
respondeu que morava em um lugar onde somente os bons corações podem chegar.
A rosa − disse ela − era o símbolo
da beleza, do sentimento nobre. O perfume era a essência invisível, e que
mesmo com espinhos não deixava de ser bela, igualmente ao verdadeiro amor.
Muitas vezes eu não sabia nem
como continuar a conversa, pois ela falava de um jeito tão estranho. O que mais
me inquietou, naquele início de tarde, foi sua resposta quando perguntei:
− De onde
você é?
− Fui de
um tempo muito longe, deste mesmo lugar, e enfrentei a barbárie em um tempo
ruim e desastroso dos homens. Hoje eu sou de um lugar iluminado e puro.− Quer dizer que você já morreu?
− Carnalmente sim! Mas espiritualmente não. Somos como o vento, pois sempre existiremos e seremos sentidos, embora os olhos não possam ver.
− Por isso você não envelhece. Ai meu Deus! Eu, eu...pensei que..
− Não tenha medo! Você já esteve onde estou, apenas não lembra.
− Quantas vezes você irá vir ainda?
− Outras duas. Agora devo ir. Guarde esta outra carta na mesma caixa azul e não deixe de ler quando se sentir só. Ah, e dê um nome a ela.
Outra vez ela se foi, e me
deixou com um milhão de pensamentos e perturbações, e para completar ainda estava
com desamparo emocional. Mesmo com tanta confusão na minha cabeça, olhei
fixamente, durante um bom tempo, para um casal que ali estava. Segurei a carta, dei-lhe o nome de meio
dia, e trouxe-a comigo.
***
No auge dos meus quarenta anos,
após casar, ter filhos e um bom emprego, costumava ficar na janela do meu
modesto apartamento, nos fins de tarde, escutando Elis, Jobim e Fagner, olhando
para a verticalizada Fortaleza, enquanto os garotos lá em baixo exalavam
energia e vitalidade.
As canções que ouvia não me
levavam as feridas abertas, mas ajudavam a cicatrizá-las, pelo poder da memória
e da capacidade de me conduzir a minha juventude.
Em mais um fim de tarde, escutando
aquelas mesmas músicas, e deixando-me levar pelas ondas das recordações, ouvi outra
vez aquela voz me falar:
− És jovem
e tens muita vida, não podes perder a alegria de viver!
− O costume
me conduziu aos mesmos hábitos.− Você é personagem principal de sua vida, inevitavelmente o tempo passa.
− Os erros não deixaram de existir.
− O que passou, certamente não voltará, mas todos os dias você poderá recomeçar, e construir um novo caminho para seguir.
Então ela me levou até a janela
e me mostrou o horizonte rasgado pelas pessoas na rua, jovens, velhos,
crianças.
− Fazemos
parte de um ciclo infinito que se propaga de eternidade em eternidade, e faz
parte do crescimento não deixar-se abater pela falsa sensação de fraqueza e
impossibilidade. Olhe! Veja todos eles, você faz parte disso, todos nós
fazemos!
− Mas você
não entende, está sempre com a mesma aparência!− Deixe-me contar pra você um pouco da minha história. Quando estive aqui, o meu maior sonho era ajudar as pessoas, e tentar curá-las de alguma forma. Tornei-me enfermeira e após atuar pouquíssimo tempo aqui, me alistei para ir a um país distante que tinha muitos feridos. Estávamos em mais um período de discórdia e erro, ao que chamamos de Segunda Guerra Mundial, e o Brasil mandara mulheres para ajudar aos soldados feridos.
− Quer dizer que você esteve na Segunda Guerra Mundial? Meu Deus, que loucura!
−Estive, era algo triste, doentes e feridos entrando toda hora, sem medicamentos nem macas, tínhamos que colocá-los em lonas, e às vezes no chão.
− Que triste! Deve ter sido horrível!
− Foi sim, fui incansável até o dia em que...
− Em que o quê?
− Um helicóptero de guerra lançou uma bomba sobre a tenda em que estávamos e matou a todos nós: feridos e sãos.
Lágrimas caíram do meu rosto como
se de dentro da minha alma tivessem saído, e logo senti um entalo na garganta,
como se a voz estivesse presa, por imaginar aquele lamentável momento. Disse a
ela que esperasse um pouco, pois iria até o quarto buscar uma folha de papel
para mais uma vez escrevermos, o que seria a quarta carta.
Quando retornei, ela mandou que
eu descesse e fosse respirar um pouco daquele vento do fim de tarde, e que
quando eu retornasse iríamos escrever. Fiz desta forma e escrevemos aquela
carta, ao qual nomeei de fim de tarde, e logo após concluir, ela se foi outra
vez e disse que sua última visita seria no dia em que eu iria partir.
Então tornei a escutar as minhas
velhas e boas músicas enquanto o sol já despontava lá no fim, e a noite invadia
devagarzinho cada pedaço desse lado do hemisfério.
Suas visitas sempre eram em momentos
específicos e difíceis, me visitou na infância, na adolescência, na juventude,
na maturidade, e disse que me visitaria pela última vez no dia exato que eu
partisse, entendi que seria na minha velhice.
Foi uma viagem de longos anos,
sublime por toda a benevolente essência absorvida. Entre risos lacrimejados e
lágrimas sorridentes, encontros comigo e desencontro casuais, para em outro
momento me reencontrar com a áurea puramente cândida.
Já faz alguns anos que chegou
minha velhice, e tenho que confessá-los uma coisa: Hoje ela me visitou! Sem
muitas palavras trouxe-me um conforto incrível e disse que eu deveria me
apressar em escrever esta última carta, pois partiríamos, acrescentou que desta vez quem
deveria escrever era apenas eu, sem o intermédio de sua mão sobre a minha.
Chegou a minha hora, já anoiteceu
e devo-lhes responder quem sou. Eu sou você! Sou seu ciclo de vida desde a infância
até a velhice. Sou uma ponta da vida,
desde a sua concepção até outro ponto que é o início para uma nova concepção.
E antes que partíssemos,
segurando as minhas mãos, ela me respondeu minha última pergunta:
− Já que é chegada minha hora, responda-me. Afinal, qual o seu nome?
Então, ainda com o vestido e olhos azuis, serenamente ela me respondeu:
− Marina, meu nome é Marina.
UMA OBRA DE TONI MARINHEIRO


Nenhum comentário:
Postar um comentário