Eu me permito fluir em versos livres, e não os conduzo a uma estrutura que seja coerente em suas conexões.
Eu os deixo saltar, e ao invés de procurar estilizá-los para um determinado fim, contemplo toda sua essência tal qual se concebe.








quarta-feira, 24 de outubro de 2012

DE SORTE, MORRERIA




Não posso, simplesmente, resistir ao tentador desejo de me afogar em um copo de angústia. Juntar papéis e soltar versos ao vento para mendigos tão desesperados, permanecendo olhando da janela quebrada, no alto do quinto andar. Não posso! Não faz nem meia hora que me fiz juras, e agora arrependo-me de já não cumprí-las. Estou odiando ter de atravessar o corredor que conduz às extremidades do apartamento, onde cruzo com o quandro que pintamos juntos, sentados ao chão de dezembro do ano passado. Naquele dia, começamos ordenadamente, e em apenas quinze minutos de dedicação à arte, usamos os pincéis para pintar também os nossos corpos sobre o carpete vermelho da sala. Naquele momento nos sentimos os mais vadios dos poetas ousados. O suor espalhava a tinta. A gravidade ajudava. Sem falar nas mãos que traziam e levavam até o rosto, quantidades impressionantes de amor. Insuportável estar vivo para lembrar disso como defunto. Imóvel, impotente, cego. Se estar vivo é supremo, pois desta forma resigno-me em lembrar, antes, se justo fosse, de sorte morreria.

 

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