Hoje eu regressei em minhas muitas recordações
Abri uma antiga caixa onde guardo tudo que considero importante
Toquei objetos, li vários bilhetes, ouvi várias canções
Voltei ao passado por um piscar de instante
Quase uma hora passada e eu não parava de olhar
Tudo se tornara único, cada carta, cada recado
Muitas pessoas e momentos para relembrar
Mas o que mais me inquietou foi um certo retrato
E olhando o tal retrato, fui levado aquele dia
Sem que fosse de minha vontade, fui jogado pela memória
Revi aquele momento como farsa da realidade fria
Busca giratória da minha identidade, esquema paralelo da história
Aquela fotografia foi intrusa e não autorizada
Apenas euforia de amante propriamente dito
E sem que o outro percebesse, registrei a tal amada
Coragem de ousar e enfrentar sem ser coibido
Quando a luz da câmera a tocou ela se fez despercebida
De fato ela nutria esse recíproco desejo
Olhou profundamente pra lente destemida
E voltou ao seu senhor, em lugar de cortejo
Percebi sua lágrima ao canto do olho cair
Não era uma dama plenamente feliz
Era de um atrair fogoso em seu ímpeto despir
Que superava o talento de qualquer meretriz
Poderíamos ter vivido um tradicional envolvimento
Onde existisse separação, e nova casa para morar
Preferimos, no entanto, mantê-la em seu casamento
A aventura do proibir era o segredo do flertar
Horas juntos nas madrugadas escondidas
Deixávamos surgir risos intermináveis
Era fuga que precisávamos, sem medidas
Com carícias longas e incomparáveis
O tempo passou. Já não nos víamos com frequência
Ela renegou e quis por um ponto final
Era medo de seu senhor que descobriu a efervescência
E a intimidou com ameaça mortal
Eu fui embora. A dama também.
O romance foi real e de fato
E de todos os prazeres que ficamos sem
Restou apenas o retrato


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