Eu me permito fluir em versos livres, e não os conduzo a uma estrutura que seja coerente em suas conexões.
Eu os deixo saltar, e ao invés de procurar estilizá-los para um determinado fim, contemplo toda sua essência tal qual se concebe.








quinta-feira, 27 de outubro de 2011

E O PIOR QUE EU JA SABIA


De repente me deparei com você e suas manias absurdas
Sua vontade de domínio forçado de relação às escuras
Tua vontade de falar-me alto e mostrar superioridade
Com sua brincadeira sentimental invasiva
Tua essência respirava desrespeito ao amor de verdade
Tuas palavras eram deformadas e corrosivas
Você jurou tantas promessas que até podia acreditar
Mas durava a minúscula eternidade de um olho a piscar
Você manipulou com artimanha a inocência de um coração
Deixou criar sonhos medíocres de nunca realidade
Ingeriu o prazer completo de noites de clarão
Cuspiu com vontade, ingratidão, ódio e insensibilidade
Em que instantes foram feitos os teus traços frios?
O que te motiva a não desejar, pelo menos do medo, apenas o arrepio?
Não pode ser possível gostar tanto da solidão
Ao ponto de tornar ao outro objeto de estante
Artefato antigo de mera decoração
Ventríloquo manipulado de tuas adesões restantes
Questionei-me, massacrei-me. Quis deixar-te. Era o racional
Voltava ao começo, no mesmo sofrimento, ao ponto inicial
As correntes invisíveis do meu próprio porão
Entrelaçava-me e não me deixavam passear
Suspendiam-me daquele teu chamado chão
Ironicamente fazia-me de tetos em tetos flutuar
O que ilusoriamente eu ainda esperava acontecer?
Mudanças suas que modificassem essa nossa forma de viver
Isso não acontece assim, movido apenas pela minha singular vontade
Estar sozinho em meus planos era algo comum, ainda assim desejava
Queria ouvir a tua campainha tocar e abrir a porta para felicidade
E descobrir que no fundo de tudo, você simplesmente me amava
Sentados ao canto, começamos a esperada conversa
Você quis resumir o assunto, eu detestava aquela pressa
Poupou em três palavras, abusou em consequência
Olhou-me pela ultima vez e me afastou para o lado
Deixou pra trás um amor, abandonando em consciência
E disse apenas: ESTÁ TUDO ACABADO.

GRITO


Aventurar-me em minhas múltiplas loucuras já tão conhecidas
Sem ter hora para retornar de mim, sem compromisso, sem amarras
Ontem saltei de um prédio em chamas ardentes de labaredas fortes
Era sonho de terremoto, de desejo sórdido, remoto, sem rótulo
Naquele instante quis permanecer longe da realidade
E não ter de encarar certas complicações, aplicações, implicações
No meu mundo eu me mando, eu me mudo, eu não sou mudo
Existem vontades respeitadas ao que falo, não me permito ego machucado
Não aceito nenhuma tipo de tortura, armadura, compostura, que dirá ditadura
Mas aconselho ao quieto, ao frenético, ao esbelto, ao diabético
Seja livre de toda liberdade espontânea
Não se importe com tapas e palavrões em público
Viva, reviva, conviva, invista à vista
O Olhar é perspicaz, indiscreto. Deixe que olhem mesmo
Seja foco, modelo, enquadre de terceiros
Já despetalou as rosas do jardim vizinho?
Despetale-as!
Já tomou para si a serenata dedicada a outra pessoa?
Tome-a!
Já quis por um segundo não ser você mesmo?
Usurpe!
Já leu versos que acredita serem seus mesmo não os tendo escrito?
Plagie-os! Até mesmo esses.
Já ofendeu alguém em pensamento?
Ofenda-os! Mas só no pensamento
Já os elogiou em voz alta?
Continue elogiando-os! Afinal precisamos dizer aos outros o quanto são bons.
Descubra seu próprio itinerário, após descobrir me faz um favor? Esqueça
Lembre-se sempre de você. Acredite em você. Ame você. Viva você.
Lembre-se sempre do outro. Acredite no outro. Ame o outro. Viva o outro.
Não sejamos egocêntricos. Aliás, sejamos sim! Apenas o suficiente para conhecer a dádiva do amor próprio
Após tudo isso acordar faz parte, tornar a realidade da verdade
Pois aventura é muito mais interessante quando a gente vive longe dela
Quando a gente vez ou outra a encontra
Então começa novos planos na espera do que está a pronta
E quando sentir-se sozinho, triste, cansado, faminto, excitado, tenso, abandonado, calado, feio, assustado, inquieto, raivoso, rancoroso, arrependido, feliz, realizado, louco
Grite o mais alto que puder até ficar rouco.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

DESABAFOS EM REUNIÃO


Aquele que nos enviou nos dotou da capacidade de amar
E como instrumento deste dom deu-nos os familiares
Amizades, almas similares, vontade de sonhar

Feliz o homem que reconhece a grandeza de ser pequeno
E em seus atos mais nobres, atitudes que elevam o espírito e fortalece o peito erguido

Passamos a maior parte de nosso tão acelerado tempo nos preocupando em milhares de desatentos
Amores vis, dores passageiras, atitudes certeiras

Não foi o inverno que trouxe o verão
Nem foi cessada a virtude de perceber a inspiração

São os pilares da construção servil em um céu azul anil,
A massa, o povão e o civil

Dinheiro tantas vezes em primeiro, foges do bolso que parece furado
Dívidas, contas e contratos em prestações como cavalo-alado
E o duro salário o sonho vai suprimindo
O pai vê o garoto sorrindo, lhe pedindo um novo brinquedo
Mas sentes a dor estampada no peito
- Quem sabe próximo mês! - grita a crença do pobre camponês

É tanta buzina de carro, é tanto paletó de empresário
Semáforos e reuniões. E agora onde estão as emoções?
Estampados na figurinha de icekiss? Ou no serenata que a namorada quis?
Não é justo patrão, não existe compra e venda do pobre coração.

Gentilezas de piedade já não importam não
A fé é a gasolina do carro cristão
A gente nessa tribuna, muitas vezes em posição de réu, detendo a esperança, chave do céu
E quem nos cuida, a fuga o guardião, protetor incansável

Segredos fúteis eu não quero guardar, tesouro da vida eu aprendo a buscar
Já não importa se é noite ou dia
Caminhe sempre com alegria
Mesmo que pela cidade dos solitários, em seus atos primários

A verdade é que permanecemos encaixados nessa teia de confusão
Movidos pelo Instinto de sobrevivência, a sonhada evolução

Conclusão da Reunião

TREM SEM DESTINO


Ainda tenho guardado em mim sonhos ambiciosos e virtudes decifráveis
Por muito tempo quis encontrar o momento certo de mostrar o meu melhor
Talvez esse momento ainda não tenha chegado
Descobri que o tempo é um trem sem destino, com diversas estações
Ou a gente permanece nele e segue sem saber aonde vai
Ou aventura-se em saltar em movimento
Eu optei por esperar a próxima estação
E saltar em alguma esperança de solo firme
Não sou tão invencível que permanecesse sem destino
Nem tão forte para saltar no caminho sem nada
Sou apenas um homem de fé, e fé no que virar

O RETRATO


Hoje eu regressei em minhas muitas recordações
Abri uma antiga caixa onde guardo tudo que considero importante
Toquei objetos, li vários bilhetes, ouvi várias canções
Voltei ao passado por um piscar de instante
Quase uma hora passada e eu não parava de olhar
Tudo se tornara único, cada carta, cada recado
Muitas pessoas e momentos para relembrar
Mas o que mais me inquietou foi um certo retrato
E olhando o tal retrato, fui levado aquele dia
Sem que fosse de minha vontade, fui jogado pela memória
Revi aquele momento como farsa da realidade fria
Busca giratória da minha identidade, esquema paralelo da história
Aquela fotografia foi intrusa e não autorizada
Apenas euforia de amante propriamente dito
E sem que o outro percebesse, registrei a tal amada
Coragem de ousar e enfrentar sem ser coibido
Quando a luz da câmera a tocou ela se fez despercebida
De fato ela nutria esse recíproco desejo
Olhou profundamente pra lente destemida
E voltou ao seu senhor, em lugar de cortejo
Percebi sua lágrima ao canto do olho cair
Não era uma dama plenamente feliz
Era de um atrair fogoso em seu ímpeto despir
Que superava o talento de qualquer meretriz
Poderíamos ter vivido um tradicional envolvimento
Onde existisse separação, e nova casa para morar
Preferimos, no entanto, mantê-la em seu casamento
A aventura do proibir era o segredo do flertar
Horas juntos nas madrugadas escondidas
Deixávamos surgir risos intermináveis
Era fuga que precisávamos, sem medidas
Com carícias longas e incomparáveis
O tempo passou. Já não nos víamos com frequência
Ela renegou e quis por um ponto final
Era medo de seu senhor que descobriu a efervescência
E a intimidou com ameaça mortal
Eu fui embora. A dama também.
O romance foi real e de fato
E de todos os prazeres que ficamos sem
Restou apenas o retrato

 

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O TECIDO LUXO


Farpas de soberba incomodam
E de qualquer valor é atribuída
Mas onde está a velha roupa?
Deixada de lado, foi esquecida
O engano se transpôs
Na verdade que se complica
Com caráter que se distorce
E o desejo se suicida
As pérolas invadiram o salão primeiro
A dama da noite corrompeu os olhares
De toda graça, de jeito faceiro
Estremeceu a torre e seus pilares
Cobriu-se de inquieto poder
Na natureza do ter infinito
Parecendo um tanto comum
Em um mundo oprimido
Oprimido da própria necessidade
De fazer-se exclusivo
Confundido felicidade
Com acúmulo excessivo

 

domingo, 9 de outubro de 2011

VÁRIAS PRIMAVERAS


Ela foi chegando e eu nem percebi
Achei que estava distante e não a vi
Ela se aproximou, me alertou, me tocou
Tentou me avisar mas de nada adiantou
Ela estava lá, porém não parecia estar
Eu voei nas asas do meu pensamento, na coragem da minha juventude
Na beleza da minha palidez, da minha força
Não percebi seu reflexo que podia ser visto atrás de mim
Eu caminhava em direção aos tais objetivos e aos meus sonhos
Por mérito muitas vezes me achei distante e me fiz inocente
No entanto ela chegou devagarinho, corria! Mas corria devagar em passos sutis
Aproximou-se, apresentou-se
Eu não a quis aceitar. Foi inevitável
Ela me tocou e me fez vesti-la
E hoje ela está em mim
O seu nome é velhice, foi ela mesma, que por teimosia me disse.

 

DISCURSO INTERIOR


Se eu pudesse falar para milhares de surdos
Falaria com palavras que fossem tão consoladoras como as que se escuta na infância
Mas diante deles talvez fosse mudo
Nessa minha falta inconsciente, inesperada, chegada
Que me deixa tantas vezes em calados argumentos
Deveria dizê-los da vida que temos vivido, experimentado
E que desta não abriríamos mão nem por todo dinheiro do mundo
Mesmo diante de  trajetória de quedas, de empecilhos, de muros
Diria a eles o quanto impotente sou, fragilizado, desarmado, amado e não encontrado
Perdido em mim mesmo, nas minhas próprias vontades
Na minha vaidade, no meu modo de ver as pessoas
Na forma em que pego o trem, se é que o pego
De quando vou ao supermercado, de afagar o filho amado, de leva-lo para escola
Se esses surdos me ouvissem, ouviriam meu desespero
Observar-me-iam e manter-se-iam paralisados
E eu querendo falar o quanto preocupado estou, ou quanto estava ontem
Suas surdezes não os impediria de tal fato perceber, são sábios, grandiosos, escutam com a alma e com intuição, e ao final do tal discurso levaria para sempre uma lição:

A nós vozeados no vício de usar de palavras impróprias deixamos de escutar com o coração.

O SEGUNDO


Aposto que você não saberia dizer quanto tempo dura o segundo
Não falo do tempo cronológico, nem do ponteiro do relógio, nem daquilo que se conta
Falo do segundo palpitante, do ciclo de emoção
O segundo que faltou para encontrar a pessoa amada
O segundo que foi perdido ou ganho da sorte
O segundo que acabou, que livrou da morte
O segundo que se fez importante, viajante itinerante
Para este há mérito, há valor, há qualidade
É segundo de tempestade, de infidelidade
Para este segundo quem contará as histórias perdidas, rastejadas ou vividas?
Não encontrei quem o conte, quem o junte, o remonte
Não existe parentesco ao seu derradeiro. Pois este segundo, somente neste segundo, fez mais importante do que o primeiro.

POESIA NO ESCURO



Nesse momento que me encontro sozinho, que percebo quão pequeno e grande é meu universo,
universo de anseios, universo de vontade, de desejo.
Penso que o horizonte pode ser maior que almejo, e enfureço em busca de liberdade, de vontade de ser o que sou, de poder falar o que quero, de exaltar, de explodir as minhas sensações, os meus momentos, meus pontos mais fracos.
É escuro, e o escuro inunda, o escuro é agudo, o escuro transforma, modifica, ilude. Cria imagens que não existem.
E o silêncio?
O silencio invade, e invade de tal forma que ironicamente grita. Grita no fundo da alma.
Agora não se pode ver, não se sabe o que vem nem o que rodeia, o que se chega, o que se esconde, o que se afasta, o que pode vir, o que já veio e nem deu pra perceber.
São assim nas madrugadas inquietas, descobertas, desilusões.
E a poesia?
A poesia está na espera de um amanhecer sorrindo, de sol brilhante, de verdes pastos verdejantes, de flores abertas de perfumes exalantes, de mulher amada, de paixão correspondida, de trabalho valorizado, de vida. Vida feliz, vida de força soberana.
Mas ainda é noite, está escuro e as estrelas ainda apontam no firmamento, e na solidão cala-se o poeta, ou fala o poeta pois tudo é sempre uma faca de dois gumes, é sempre dois caminhos, e sempre há mais uma escuridão para se encontrar, para se enxergar e olhar para dentro, pra se conhecer, se descobrir, para se fazer verdadeiramente humano.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

F[A]TO




O Fato pagou o pato pelo ato
O ato reclamou de tal fato
O fato disse ser incorreto este ato

Discutiram, divergiram, discordaram
Reclamaram, refizeram, reataram
Propuseram, perguntaram, publicaram

Passou-se, portanto, meio sol de entendimento
Diante do ato o fato de estranhamento
No discurso dessa culpa, houve até o desalento

Sol inteiro se prostrou, o ato interrogou:
É de fato o culpado? Responda-me, por favor
Se há culpa eu não sei. Com licença meu senhor

E o fato sem demora pôs-se logo a sair
Esperto como ele devera saber o que há de vir
O ato reclamou, o fato quis sorrir

E o pato que foi pago ao ato pelo fato?
Esse teve sorte
Soube ele ser sensato.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

INDIFERENÇA





O mundo está em silêncio
Calo-me para tentar percebê-lo
O grito sonoro se esconde
Invade-me um deserto por inteiro

Entre minúsculas frechas tento entendê-lo
Olhar e me encontrar no seu esconderijo
Sussurros trêmulos ao pé do ouvido
Escutando a própria voz de tudo o que digo

Escureceu e ainda assim permaneces intacto
Como perseguisse algo que foges de ser-lo
Invejado por desejo e impacto
Descobriu no declínio a intensidade de seu peso

A luz da razão nos quer iluminar
Em vão nosso olhar tenta encadear
Não se trata do óbvio que a tolo norteia
Mas é sentimento que vislumbra, que valseia.