Eu me permito fluir em versos livres, e não os conduzo a uma estrutura que seja coerente em suas conexões.
Eu os deixo saltar, e ao invés de procurar estilizá-los para um determinado fim, contemplo toda sua essência tal qual se concebe.








segunda-feira, 29 de julho de 2013

INÉRCIA



O que é mais alto do que um olhar de esperança?
Tem algo mais profundo que um precipício de desilusão?
Saudade sufoca bem mais, mágoa afoga mais intensamente;
Jardins suspensos são olhos que pendem, cachoeiras são lágrimas incessantes.

Quais os caminhos que os loucos percorrem?
Onde são as armadilhas dos sãos?
Grito de peito é sirene que ecoa, testa franzida é a força que recua;
Sono profundo é medo opaco, silêncio agudo é ar respirado.

Tantas palavras, nenhuma palavra
Algum desejo, contidos os freios
Aparência rasa.

Rotas provisórias, traços medrosos
Rotas, portas, mortas
Invejosos.





VÔO



Se cartas voassem e planassem sobre tais pensamentos, diriam delírios, viveriam extraordinários personagens e romperiam a lei do silêncio memorial.



segunda-feira, 20 de maio de 2013

ÍNTIMO


Madrugada desertificada de pensamentos involuntários, de saudade que entontece e de palpitações que afligem. Doce silêncio que provoca gritos internos, e que destempera os desejos de explodir-se, para depois, solitariamente, catar-se os cacos de um ego ferido e de uma alma abandonada. São assim, as madrugadas daqueles que amam e não podem ser amados.


O DIA DA SUA MORTE



Depois de debruçar-me sequenciadas vezes sobre a minha aguda dor, no intuito fálido de abafar o grito que ela externava, arregalei os olhos vermelhos em fogo de chorar, apanhei o lenço branco enxarcado, caído ao pés, e juntei vagarosamente, uma a uma, todas as fotografias torturadoras, que outrora arrancara de mim tantas alegrias e risos excitantes. Esquentei
água para fazer um café forte, preto, amargo, para manter-me acordado, se possível pro resto da vida, pois dormir tornara-se um pesadelo de memórias inquietas, que açoitavam, apunhalavam, e sangravam as feridas abertas. Tomando o café, arquitetei, por diversas vezes, planos, projetos e armadilhas. Tudo vão! Tudo inútil. O telefone ao lado, intacto, imóvel, não respondia a nenhum dos meus estímulos sentimentais. Chuva batia no telhado. Os quadros ao redor, ficaram desfigurados, e a cama, que antes era pequena, agora, tomara proporções continentais, aumentando e acentuando o vazio que existia ali. Dois travesseiros, dois pares de sonho, dois caminhos, dois projetos. Um só adeus e luto. DESCANSE EM PAZ MEU AMOR!



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

CERTOS ENTRAVES



O meu maior medo é de perceber que eu fui enganado pelo meu próprio coração, e que isso pode ter consequências desastrosas. Lutar contra o outro é fácil, difícil mesmo é quando seu maior inimigo é o que explode dentro do peito.

 

DESTINO

Dai-me por favor, meu querido destino, um pouco de premonição. E desta forma, mesmo um tanto rebelde, ensina-me a contenção e como pisar nos freios da língua.
Direcione a rotação dos meus olhos, e cumpra sobre mim tua honrosa missão.
Seja mais meu amigo. Não caminhe em direção contrária ou em confronto, leva-me subliminarmente em teu colo.
Que tal gozarmos de mais aproveitamento, e cuspirmos menos perdas? Entala-me, apenas, de línguas envasivas, e não de lágrimas ao ponto de saltar os olhos.
Mandas ao meu encontro, alguém que desequilibre todos os meus eixos, e que molhe minha boca. Diga o quanto tenho e o quanto sou, mas principalmente, o quanto deixo de ser, quando sinto-me só.
Quero ser um salto, e que tu destino, seja o espaço, invisível, ocupante, existente.
Seja meu mentor, meu caminho, mas não seja eu. És tu, o que não dependes, mas o que prendes.

 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

SUBSTANCIALMENTE




Que o peito aprisiona, isso todo mundo já sabe. Que as fagulhas de um amor mal vivido tornam a
queimar a cada segundo desprovido, muitos já experimentaram. O que torna a acontecer, nada mais é do que o reflexo de experimentações deixadas incompletas, abertas, inacabadas. Aliás, eu sinceramente não saberia afirmar de toda precisão, se elas poderiam ter sido finalizadas, pois de todas as minhas convicções, a mais forte é acreditar em um mundo de pausas e não de deletes.


 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

CONCORDA?


Tentamos fazer das outras pessoas um reflexo de nós mesmos. E quem, em algum momento, por menor que fosse, nunca desejou invadir o coração de outra pessoa, e fazer certos ajustes? Isso é ruim? É egoísmo? Vaidade? Desleaudade? Não! Nada disso. Isso é o desejo que as coisas encaminhem-se da melhor forma. Mas quem tem a melhor forma? Eu? Você? Nós? Dificilmente chegaremos a uma concluão que seja satisfatória a todos, mas continuemos a buscar, a tentar. Quem sabe um dia, entre tantas vontades, desejo de mudanças e adaptações, a gente se esbarre com quem amamos, em uma dessas esquinas tortas do coração.

 

RUPTURA


Fomos acordados brutalmente de nosso sonho. Estávamos seduzidos, encantados, deitados em uma rede vermelha com varanda de renda branca. O vento refrescava, nossos braços proporcionavam aquecimento mútuo, então mantinhamos o clima perfeito. Não me importa, pelo menos não mais, quem foi que nos acordou para essa realidade farsada. Importa-me sim, que eu, nem que seja nos resquícios de minha última força, ignore os invejosos e inecrupulosos, e volte a sonhar. Para tanto, é fácil, ousado, mas plenamente possível, basta não ter medo da rede e voltarmos a dormir juntos.
 


 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

PARA MATAR-ME


Começe beijando minha nuca, enquanto suas mãos delineiam meus ombros. Deixe sua respiração tocar levemente meus poros, e assim, submeta meus pêlos a ficarem na posição vertical. Diga-me meia dúzia de ilusões, a qual eu julgue verdade pelo menos por um segundo. Depois, espalhe meu cabelo com suas unhas, e venha percorrendo até chegar ao meu rosto. Quando estivermos com os olhos se enfrentando, conduza sua língua ao redor da boca, e então me embriague, motivando-me a fechar os olhos. Quando isso ocorrer, tire-me do chão, envenene-me com seu beijo e me deixe sentir o prazer de morrer em seus braços.

 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

POR QUE TE INVENTARAM?



Saudade é uma palavra que não tem gosto. É um apelo ao tempo para que apresse o seu caminhar. Saudade é chuva e neblina, com rede vazia na lembrança. Chinelos solitários na varanda. Saudade sensibiliza, te comprime o peito, te abre a mente. Saudade é oito da noite de um sábado solitário, é um caminhar na praia no fim de tarde, sem alguém para levar. É natal ...
sem ter a quem presentear. Saudade é acordar sem despertar, vestir-se sem arrumar, comer sem alimentar, viver sem acreditar. Saudade é desepero de chegada, é repudio da partida, é dor acometida. Saudade é como um caixa escupida de vontade, no qual guarda-se bilhetes que nunca mandou, mas que se deseja muito entregar. Guarda-se papel de bombom que nunca foi comido. Foto três por quatro, cartão postal, bilhete de guardanapo, pedaço de um vestido. Saudade é sonhar com a pessoa, de modo indesejado, e odiar-se por ter apenas se alucinado. Saudade te amadureçe, faz você melhorar, só não deve ser longa. É um pouco de um quase tudo, e um passo de um tudo em nada. Saudade é o que nesse momento eu não desejaria ter.
 
 

EM VOCÊ


Noite de fortuna. Riquezas da alma, das teias psicológicas. Noite de aprofundar-se em suas próprias lacunas e preenchê-las. Esvazie-se do que já não mais serve, do que um dia já te preencheu e hoje te seca, apenas. Façamos uma viagem em nós, pelas nossas veias, visitemos cada pedaço do nosso corpo. Parafraseando: Conheça-te a ti mesmo, e então escolha se amar.

 

domingo, 25 de novembro de 2012

VERTIGEM



Não faço a menor questão de ser o centro do universo, mas ser o centro de mim mesmo, dominando meu eixo, isso é indispensável. Não me envaideceria de estar ornamentado com adereços em proporções carnavalescas, mas que em mim haja pelo menos um refletir de um adorno mínimo, e que isso seja suficiente para atrair. Duvido de quem quer que ouse usar máscaras, aumentando ainda mais as, já inúmeras, possibilidades que temos de ser. Gosto de alucinações não premeditadas, desprogramadas e casuais. Contradigo alguns conceitos vãos, e detesto ser prisioneiro do tempo e das pessoas. Caminhar de pés descalços na areia beirando o mar, com cabelos soltos, coração flutuante, olhar de infinito. Gritar! Reunir amigos, rir com eles e deles. Eis o fundamental. Quanto aos embriagamentos da alma, deixo livre a musica, a pintura, e a poesia. Estes, podereis usar em abundância.


 

ENQUANTO ISSO




Pode parecer que eu olho, mas não olho não. Você pode até pensar que eu premedito, mas não premedito não. Você pode pensar que rastejo, mas não sou cobra não. Pode imaginar que ponho a faca nos pulsos, mas não sou suicida não. Pode ser óbvio pensar em te encontrar, mas isso não tem ocorrido não. Era para estar em um mar de não sorrisos, mas sorrio muito então. Não busco respostas do destino, mas você pensa que sim. Não estrategizo armadilhas, caçador é que é assim. Vivo da vontade suprema, apenas. Vivo como se nunca tivesse vivido, mas não como se não fosse viver. Ando sentindo o chão, enquanto achas que não consigo tocá-lo de tanto te querer. Na realidade algo estranho estar, onde era para estar certo, o errado parece chegar. Onde era para ser fundo, é tão raso de nadar. Acorda você, acordo eu, desfaz teu engano que eu desfaço o meu.


 

BELO



Embelezou-me o criador com palavras. Meus olhos atrentes são minhas palavras. Minha boca carnuda, meu perfil alinhando. São palavras o meu abdomen sarado, costas largas em coxas torneadas. Braços e panturrilhas definidos são as minhas palavras. Minha altura e meu bronze nada mais são do que minhas palavras. Atraia-se por mim. Imaginariamente me ame pelo que escrevo, pois restou às minhas palavras a minha beleza, e é justamente por elas que me envaideço.
 


 

 

DIFUSO




Pinguei um furtacor nos meus olhos para ver se eles reaprendem a enxergar colorido novamente. A tua decisão anulou meus colibris, e o preto e branco da decepção assumiu a linha de frente da minha visão.

 


terça-feira, 13 de novembro de 2012

ENSAIO DE VOCÊ

Deixou escorrer ao canto de sua vermelha boca, uma gota perdida de sua saliva veneno, e antes que tocasse ao chão, aparou com suas mãos de veludo, evitando o impacto. Manteve um olhar fixo, e como quem invade a alma de outro alguém, permaneceu a despir com sua visão. Astuta e audaciosa, confundia-me cada vez que me dizia culpas e confissões. O seu corpo era escultu...
ral, e suas formas e contornos, embriagavam-me, sutilmente. Suas pernas eram longíquas. E que belas pernas! Pernas que correram de mim como um diabo que foge da cruz para não queimar-se em purificação dos seus profanos pecados. Surrou a cria de nossas ilusões, e a colocou de joelhos em milhos pontiagudos. Para além do sofrimento, o rendimento de suas preces forçadas, como uma criança desentendida de infundamentada penalidade. Pobre descendência de nós dois. Ainda escuto seu choro. Ainda lamento pela a dor de ter se tornado orfã. E do alto de seu pedestal, contempla a nós, e ainda se julgas pura, imaculada, cândida.
 
 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

OLHOS CEGOS



As supostas cinzas oriundas da queima
Tornaram ainda mais cinza o antigo mundo colorido
Aliaram-se ao, não menos nebuloso, ar que nos recobre
Impedindo que reconhecesse-mos as nossas feições
Para tanto, soprei incessantemente, desejando a dissipação
No entanto, fora isto em vão! Que decepção!
...
As nunces do teu corpo ficaram difusas
E que audácia, as minhas mão intrusas
Em tocar-te veementemente, para se possível lembrar
Como era linda a imagem, que naquele instante
Já não podia mais enxergar.
 
 

ENTALO





Engoli um relógio de cúpula quebrada e ponteiros expostos.
A cada momento que se passa, e com o caminhar dos tais ponteiros, sinto ele agredir-me a garganta onde está alojado, e me sufocar literalmente a cada segundo.


 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

PSEUDOTUDO

Do alto da árvore, entre galhos já não tão floridos, ela mordeu mais uma vez aquele fruto, que antes era tão mais saboroso, e agora tornara-se uma mordida programada. Parou, olhou, refletiu. Adornou-se de dúvidas existencialmente incompreensíveis. Onde estará o encanto? - Indagou-se. Em cima, com seu olhar já não mais decisivo como antes, resolveu cuidadosamente descer...
Já não era tão atraente assim estar ali, saboreando aquilo. Apoiou-se e tentou o equilíbrio. A subida fora mais fácil. Chegou a triste conclusão de que não conseguiria descer sem saltar. Pulou então. Caiu de joelhos ao chão, e descobriu que no fim do prazer de uma subida impensada, haverá sempre a queda inevitada. Sangrou então.

 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

DE SORTE, MORRERIA




Não posso, simplesmente, resistir ao tentador desejo de me afogar em um copo de angústia. Juntar papéis e soltar versos ao vento para mendigos tão desesperados, permanecendo olhando da janela quebrada, no alto do quinto andar. Não posso! Não faz nem meia hora que me fiz juras, e agora arrependo-me de já não cumprí-las. Estou odiando ter de atravessar o corredor que conduz às extremidades do apartamento, onde cruzo com o quandro que pintamos juntos, sentados ao chão de dezembro do ano passado. Naquele dia, começamos ordenadamente, e em apenas quinze minutos de dedicação à arte, usamos os pincéis para pintar também os nossos corpos sobre o carpete vermelho da sala. Naquele momento nos sentimos os mais vadios dos poetas ousados. O suor espalhava a tinta. A gravidade ajudava. Sem falar nas mãos que traziam e levavam até o rosto, quantidades impressionantes de amor. Insuportável estar vivo para lembrar disso como defunto. Imóvel, impotente, cego. Se estar vivo é supremo, pois desta forma resigno-me em lembrar, antes, se justo fosse, de sorte morreria.

 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O DIA DA SUA MORTE



Depois de debruçar-me sequenciadas vezes sobre a minha aguda dor, no intuito fálido de abafar o grito que ela externava, arregalei os olhos vermelhos em fogo de chorar, apanhei o lenço branco enxarcado, caído ao pés, e juntei vagarosamente, uma a uma, todas as fotografias torturadoras, que outrora arrancara de mim tantas alegrias e risos excitantes. Esquentei água para fazer um café forte, preto, amargo, para manter-me acordado, se possível pro resto da vida, pois dormir tornara-se um pesadelo de memórias inquietas, que açoitavam, apunhalavam, e sangravam as feridas abertas. Tomando o café, arquitetei, por diversas vezes, planos, projetos e armadilhas. Tudo vão! Tudo inútil. O telefone ao lado, intacto, imóvel, não respondia a nenhum dos meus estímulos sentimentais. Chuva batia no telhado. Os quadros ao redor, ficaram desfigurados, e a cama, que antes era pequena, agora, tomara proporções continentais, aumentando e acentuando o vazio que existia ali. Dois travesseiros, dois pares de sonho, dois caminhos, dois projetos. Um só adeus e luto.
DESCANSE EM PAZ MEU AMOR!

 

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

DESBRAVADORES



Desbravadores dos sertões
Homens de mãos machucadas
Feridos, a alma e os tendões
Rachados os pés em terra quente pisada
Galhos secos, horizonte infindo
No meio deles um verde raro
Com o sol queimando e reluzindo
Na fé em Deus, o amparo
Cinza-marrom é o asfalto quente
Torta é a estaca fincada
Em natureza que disputa à frente
Entre velhos galhos à bicharada
No sorriso amarelado há acolhimento
De velhos sonhos ainda vivos
As rugas do rosto revelam o sofrimento
De homens sempre tão esquecidos
Conhecem como ninguém, cada passo desse chão
E os fortes que nele pisam, sem valor qualquer lhe dar
Tentam em vão roubar-lhes tudo, até o coração
Só não se pode roubar, aquilo que foi feito do amar

 

PALCO ILUMINADO



Caminho por vias transversais e contra olhares tortos
Faz parte do meu espetáculo receber saudosos aplausos,
enquanto deixo cair inevitáveis lágrimas
Na coxia, atrás do esplendor do palco, me escuto, me sufoco, me visito do alto
Antes do abrir de cortinas, sou prisioneiro de mim mesmo
E sigo me fantasiando de um outro, que por hora, também o sou
Ao encerrar de cortinas, e o apagar do último luzeiro, levo a fúria do silêncio implacável, e saio do cenário como qualquer outro espectador.

 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

VARANDA




Vivo numa perfeita solidão
E por assim ser, vivo na espera do amanhã
Mas o amanhã não chega, a solidão não vai
Existe uma profunda dor ao olhar o brilho das estrelas
sem ter outro par de mãos para juntos apontarmos
Compartilhando o uivo dos ventos ao bater janelas abertas
e o levantar de folhas secas caídas ao chão
...
Sendo como um ser proposto pela vontade maior do universo
permanecerei assim até que o amanhã resolva tornar-se hoje
e o hoje, seja então, nada mais que a lembrança de um ontem.