Eu me permito fluir em versos livres, e não os conduzo a uma estrutura que seja coerente em suas conexões.
Eu os deixo saltar, e ao invés de procurar estilizá-los para um determinado fim, contemplo toda sua essência tal qual se concebe.








terça-feira, 24 de julho de 2012

CARTA III- MEIO-DIA

 AZUL MARINA



               Era aproximadamente meio dia, à sombra de um refrescante pé de ficus e afagada pela brisa do atlântico, observava o céu aberto, sem nenhuma nuvem, beijando o mar, compondo um exuberante cortinado. Leves brumas enfeitando o caminho, e ao longe, crianças correndo com seus atenciosos pais.

                O conhecido verde mar, migrara para um turquesa azul, e como um espelho, refletia a ofuscante luz do sol que lhe batia. Fiquei por muito tempo observando todo aquele movimento, do vento nas plantas, dos risos das pessoas, e dos fartos e descontraídos momentos de alegria. Lembrou-me uma sinfonia, cada um com seu som, sua forma, sua peculiaridade.

                Estava no passeio público, e fui invadida por uma sensação de liberdade, despreocupação e nada a fazer. Clima perfeito para apaixonados, amigos e poetas.

                Falando em apaixonados... Admiro os apaixonados! Aqueles que curtem estar apaixonados sejam, por outro alguém ou por alguma coisa, um sonho, uma possível aquisição. Paixão é intensidade, adrenalina, aventura. Não a julgo ruim, apenas passageira. No entanto, às vezes é porta de entrada para outros sentimentos como o amor e amizade, por exemplo.

                Paixão é como chama, e nós, somos como velas possuidoras de uma essência que é o pavio, que nos percorre. A chama na vela acesa pode durar até o fim, mas basta um assopro para a chama apagar. Assim também é a paixão. Tão imprevisível, inesperada, imprudente.

                Não sou guru, muito menos mentora, mas gosto de dar conselhos e ao contrário do que dizem, podem ser muito bons. Bom é curtir sua paixão, ou suas paixões. Viver o momento mágico de estar apaixonado, aquele que a gente perde a vontade de comer, ri da própria queda, dá bom dia a desconhecidos e vive no mundo da lua. Sabe aquele momento que você fica se balançando na rede, lembrando-se daquela pessoa e pedindo para o relógio correr? É o auge da paixão. E referente a ela, não se pode medir o tempo e a intensidade, mas pode-se viver e saber tudo no final. Então vamos assumir nossas paixões, sem cobrar que sejam eternas. Pois não serão, a não ser em nossa memória.

                Muitos dizem que estão em busca apenas de amor, que acham a paixão algo banal. Que tolos! Provavelmente já se apaixonaram umas vinte vezes e não se dão conta, ou não se permitem. Não digo que alguém que viva apenas de paixão, seja uma pessoa completa, porém quem muito se apaixona, muito se conhece, e descobre as coisas que a agradam e as personalidades que a atraem.

                Não aparente alguém diferente do que almejas ser, entrando em lugares, não olhe se não quiseres ver. Não se apresse, ao contrário, sossega teu ímpeto medo e guarda a força da tua minúcia, revela as paixões que desejas e grita ao mundo a tua denúncia.

                Acredito no amor como sentimento mais forte e real que existe. O amor é transformador de cenários, é como vento no deserto que modela as paisagens áridas, às vezes refresca e alivia, outras vezes invade como tempestades de areia. Nunca é desprezível, mesmo em situações adversas. Deve ser compreendido e delineado sabiamente por aqueles que verdadeiramente o possuem.

                O amor é prova da supremacia e da ordem de natureza superior. Quebra-cabeças colorido com peças difíceis de montar. Precisamos entendê-lo e principalmente senti-lo. Não pode ser frustrado jamais, pois como mola, a vida o impulsionará novamente, mais cedo, ou mais tarde. Respeite o amor seu e do outro, afinal o do outro pode ser para com você.

                A sombra do pé de fícus já se afastara um pouco, e o calor do sol já podia ser sentido mais fortemente. Entre os feixes de luz e giros de pensamentos, vi um casal de aproximadamente vinte anos sentados em um banco, distantes de mim uns dez metros.

                Mesmo ao longe, prendi-me ao detalhe dos dedos entrelaçados que uniam as palmas das mãos, junto a isso, simetricamente trocavam olhares cheios de vontade e de presença. Não falavam muito um com o outro. Talvez estivessem tímidos por ser algo novo, ou então estavam se redescobrindo. Continuei a olhar mais alguns segundos e me desviei para as borboletas que pousaram perto deles, e ali ficaram imóveis durante muito tempo.

                Na vida de todo casal existem borboletas leves e delicadas. Essas borboletas são aquelas pessoas que são como ombros e ouvidos, presentes na pior das ausências. Cuide delas e zele pela beleza da sua existência. Quando estiver enfeitiçado e no mundo da lua, pela maravilha dos beijos e carícias, não se esqueça das borboletas. Não as prendam em cúpulas indestrutíveis, e nem as visite apenas na dor. Assim como borboletas, essas pessoas são lindas, encantadoras, e são ainda, sensíveis e delicadas.

                Cultive o jardim da amizade, mesmo quando o amor e a paixão estiverem às mil maravilhas, e curta ao máximo suas borboletas, passei com elas, deixe-as pousar livremente em sua vida e ofereça colo. Desta forma, a felicidade te encontrará mais brevemente.

                Durante todo o tempo que estive ali, a cena das borboletas imóveis e próximas ao exuberante casal, foi sem dúvidas o que mais me inquietou. As reflexões provocadas em mim foram tão envolventes que nem percebi o tempo passar.

                Desejei congelar aquele instante e mergulhar no mais profundo espiral de minha mente, no entanto o sol já estava muito aquecido, foi hora de se despedir e aguardar o que ainda iria vir, e por hora, fiquei com o azul das borboletas que voaram até a mim.

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