Eu me permito fluir em versos livres, e não os conduzo a uma estrutura que seja coerente em suas conexões.
Eu os deixo saltar, e ao invés de procurar estilizá-los para um determinado fim, contemplo toda sua essência tal qual se concebe.








terça-feira, 10 de julho de 2012

CARTA I- MADRUGADA

AZUL MARINA

         Não sei quantas vezes pisquei os olhos, antes de reparar aquela pequena brecha nas telhas, e por ela, as estrelas, destacadas no escuro azul, ostentadas pelo envolvimento da noite. Em azul intenso, fechado e atraente. Não foi a primeira vez que eu olhei o céu de uma forma diferente. Pelo contrário, sempre o  namoro  e envolvo-me pela sedução dos seus mistérios, igualmente ao mar que é tão profundo e que me faz ficar horas e horas tentando desvendá-lo.
         Adoro a energia de observar certas coisas, e a minha obsessão pelo azul não é em vão, pois o azul é a cor mais presente no universo, teima em unir o céu e o mar, dois gigantes que me impulsionam a pensar, e muito mais, raciocinar.
Fitei por alguns instantes aquele pequeno orifício, que trazia até os meus olhos o universo, e em meio a minha distração e insonia, inevitavelmente, começei a  viajar em meu mais louco pensamento, revelando segredos.

         A verdade é que isso, provavelmente, também já lhe ocorreu. Tente lembrar! Quantas vezes estamos deitados, pronto para entregar-nos ao sono e a desconexão com a consciência, no entanto, nada disso vem. Em seu lugar, um filme desordenado de memórias e reavaliações, conceitos e valores circundando o que fizemos ou poderíamos  ter feito.

         É exatamente nessa hora, quando as luzes se apagam, os homens dormem e a cabeça recorre  ao travesseiro, que conseguimos o feito mais impressionante: sair do corpo e se olhar de fora, ser externo as limitações corpóreas. Como assim? Simples! Relembramos tudo, como se fossemos um olhar terceiro, indiscreto, detentor de si.

         Quando tomamos consciência disso, assumimos a honrosa posição de deuses do nosso recente passado, aquele que acontecera horas atrás, formado pelas palavras engolidas, encontros desmarcados, afronta ignorada, conteúdo não estudado, excesso peso levantado, poema não declamado, topada levada.
        Antes de dormir somos arquitetos do amanhã e do porvir. Somos exímios estudiosos, esportistas dedicados, religiosos impecáveis, e é claro, praticantes de uma vida saudável. Lamentavelmente, somos tudo isso somente até o sol nascer, e no mais íntimo do nosso esforço adormecido. Sabe quem é o primeiro a nos afirmar isso? O despertador! O maldito despertador que teima em expandir sua irritante sirene, atrapalhando nossa libernação. E advinha só, quem, ainda de olhos fechados o faz parar?

         O que destrói os nossos grandes projetos é o sono profundo e excitante, de descaso com nós mesmos e nossos desejos. Infelizmente, a capa, o escudo e o emblema de heróis, parimos na noite, antes de dormir, e sepultamos pela manhã, após acordar. Tornamos a engolir tudo o que,  à noite, juramos no dia seguinte provocar.

         E me volto as estrelas. Que linda são as estrelas! Brilhando tão distante, alcançando a mim. No quarto escuro, sem sono, presos entre quatro paredes, o mundo torna-se tão achatado. Mas as estrelas ainda estão penduradas no imenso azul.

         Se você encontra-se cada vez mais encurralado por invisíveis barreiras, como se estivesse sozinho em meio a multidão, você pode estar prestes a cair em um sono profundo. Antes que isso aconteça,  olhe fixamente para cima, para a brecha no telhado, e acredite que o mundo é bem maior, do que naquele momento,  se pode imaginar.








          E se assim como eu, sentir o sono chegando, durma então. Mas se possível não prometa nada, deixe os olhos fecharem, enquanto o azul se vai.


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