AZUL MARINA
Paradoxalmente, o exato momento em
que a noite é mais escura, é intantes antes de o dia amanhecer. É uma sádica proposta do universo para não
esquecermos o quanto é tênue a fronteira que limita os opostos. São assim, também, os sentimentos. Por isto
entre o ódio e o amor há um sutil encontro, e
basta um passo para invadir o terreno do outro e ser clandestino.
Não esperei nem o galo cantar pela segunda vez, levantei apressadamente, e
antes de qualquer coisa, corri para o quintal e respirei intensamente o
restante de orvalho que a noite deixou. Curiosamente, o céu estava saudoso com
um azul alaranjado, entre nuances de cores formou-se um espectro, e por ele, os
raios de sol envenenavam o convidativo azul da manhã.
Gozei aqueles raros instantes de
silêncio profundo, de ruas vazias e televisores desligados. Foram alguns
eternos segundos de interação com a beleza do amanhecer. E como é linda a manhã
antes de ser desvirginada pelas estridentes buzinas, levantar de portas, passos
contados e ponteiros apressados.
Tornamo-nos prisioneiros do
tempo, do calendário, das urgências e dos inadiáveis compromissos com os
paletós que nos aguardam atrás da mesa. Sem falar nas transações bancárias e a
aferição da bolsa de valores pelo mundo. Isso é tão emergencial! Olhar as
sutilezas exuberantes de um lindo nascer do sol pode esperar, afinal, o sol
está ali todos os dias, correto? Corretíssimo! O que inevitavelmente ocorrerá,
é a chegada, de um dia em que tudo estará lá, realmente tudo! Menos você! E sem
você, acredite, a reunião acontecerá, a campanha será lançada, o projeto concluído
e as manhãs nasceram outra vez.
O azul da manhã é um convite para
o novo, para o renascimento das atitudes e posturas, diante de um mundo que
insiste em beirar o caos, desfrutar do equilíbrio que te conduz a elevação. Não
se trata de um ritual, nascer com as manhãs de uma forma diferente é uma
questão de escolha e decisão. Nenhum dia é, ou será igual a outro, portanto, é
um chamado para modificarmos as nossas tão tradicionais e moldadas ideias.
Quisera eu, poder beirar as taças
cheias e escolher beber ou não, sem ser afrontada pela minha decisão, ou posta
sufocada sobre uma parede, por falsos e hipócritas moralistas, que teimam em
apresentar suas politicamente mentirosas corretas atitudes. Os retoques que
fazem na imagem, não expurgam os sepulcros de suas sujas mentes, e não os
purificam de seus pensamentos malignos quando tocam os lábios sobre os rostos,
em menção de cumprimento.
O nascer do dia é perfeitamente
belo, e enquanto eles dormem, o azul exalta a beleza do ser, e o desapego ao
ter.
Volto-me, sem assim desejar, para
o já mais quente céu, e de longe escuto os primeiros choros das crianças que, desconfortadas,
acordaram para cumprir suas iniciais missões de cidadão, e ir para escola aprender
a fazer diferença de tudo e todos.
Fujo
das crianças e sinto o cheiro forte do café invadir sem licença alguma, minhas
narinas. Cachorros latem famintos, e mais famintos, ainda, acordam os homens.
Famintos de uma verdade que não encontram, de um prazer infindo, de uma
companhia plena, de uma realização que nunca chega. Com o amanhecer, os homens nascem para o
mundo, mas não nascem para si. Perdem todos os dias, no desejo de dias
melhores. E o incessante azul convida-os para mais uma vez encontrar suas
essências. Que teimoso azul! E mais teimoso
ainda, é o homem que o vulgarizou, e o tornou banal quando, aos seus olhos,
apresentou falsas e passageiras ilusões.


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