Eu me permito fluir em versos livres, e não os conduzo a uma estrutura que seja coerente em suas conexões.
Eu os deixo saltar, e ao invés de procurar estilizá-los para um determinado fim, contemplo toda sua essência tal qual se concebe.








segunda-feira, 16 de julho de 2012

CARTA II- AMANHECER

AZUL MARINA

Paradoxalmente, o exato momento em  que a noite é mais escura, é intantes antes de o dia amanhecer.  É uma sádica proposta do universo para não esquecermos o quanto é tênue a fronteira que limita os opostos.  São assim, também, os sentimentos. Por isto entre o ódio e o amor há um sutil encontro, e  basta um passo para invadir o terreno do outro e ser clandestino.

Não esperei nem o galo cantar pela segunda vez, levantei apressadamente, e antes de qualquer coisa, corri para o quintal e respirei intensamente o restante de orvalho que a noite deixou. Curiosamente, o céu estava saudoso com um azul alaranjado, entre nuances de cores formou-se um espectro, e por ele, os raios de sol envenenavam o convidativo azul da manhã.

Gozei aqueles raros instantes de silêncio profundo, de ruas vazias e televisores desligados. Foram alguns eternos segundos de interação com a beleza do amanhecer. E como é linda a manhã antes de ser desvirginada pelas estridentes buzinas, levantar de portas, passos contados e ponteiros apressados.

Tornamo-nos prisioneiros do tempo, do calendário, das urgências e dos inadiáveis compromissos com os paletós que nos aguardam atrás da mesa. Sem falar nas transações bancárias e a aferição da bolsa de valores pelo mundo. Isso é tão emergencial! Olhar as sutilezas exuberantes de um lindo nascer do sol pode esperar, afinal, o sol está ali todos os dias, correto? Corretíssimo! O que inevitavelmente ocorrerá, é a chegada, de um dia em que tudo estará lá, realmente tudo! Menos você! E sem você, acredite, a reunião acontecerá, a campanha será lançada, o projeto concluído e as manhãs nasceram outra vez.

O azul da manhã é um convite para o novo, para o renascimento das atitudes e posturas, diante de um mundo que insiste em beirar o caos, desfrutar do equilíbrio que te conduz a elevação. Não se trata de um ritual, nascer com as manhãs de uma forma diferente é uma questão de escolha e decisão. Nenhum dia é, ou será igual a outro, portanto, é um chamado para modificarmos as nossas tão tradicionais e moldadas ideias.

Quisera eu, poder beirar as taças cheias e escolher beber ou não, sem ser afrontada pela minha decisão, ou posta sufocada sobre uma parede, por falsos e hipócritas moralistas, que teimam em apresentar suas politicamente mentirosas corretas atitudes. Os retoques que fazem na imagem, não expurgam os sepulcros de suas sujas mentes, e não os purificam de seus pensamentos malignos quando tocam os lábios sobre os rostos, em menção de cumprimento.

O nascer do dia é perfeitamente belo, e enquanto eles dormem, o azul exalta a beleza do ser, e o desapego ao ter.  

Volto-me, sem assim desejar, para o já mais quente céu, e de longe escuto os primeiros choros das crianças que, desconfortadas, acordaram para cumprir suas iniciais missões de cidadão, e ir para escola aprender a fazer diferença de tudo e todos.

                Fujo das crianças e sinto o cheiro forte do café invadir sem licença alguma, minhas narinas. Cachorros latem famintos, e mais famintos, ainda, acordam os homens. Famintos de uma verdade que não encontram, de um prazer infindo, de uma companhia plena, de uma realização que nunca chega.  Com o amanhecer, os homens nascem para o mundo, mas não nascem para si. Perdem todos os dias, no desejo de dias melhores. E o incessante azul convida-os para mais uma vez encontrar suas essências. Que teimoso azul!  E mais teimoso ainda, é o homem que o vulgarizou, e o tornou banal quando, aos seus olhos, apresentou falsas e passageiras ilusões.


Nenhum comentário:

Postar um comentário