Eu me permito fluir em versos livres, e não os conduzo a uma estrutura que seja coerente em suas conexões.
Eu os deixo saltar, e ao invés de procurar estilizá-los para um determinado fim, contemplo toda sua essência tal qual se concebe.








terça-feira, 30 de outubro de 2012

PSEUDOTUDO

Do alto da árvore, entre galhos já não tão floridos, ela mordeu mais uma vez aquele fruto, que antes era tão mais saboroso, e agora tornara-se uma mordida programada. Parou, olhou, refletiu. Adornou-se de dúvidas existencialmente incompreensíveis. Onde estará o encanto? - Indagou-se. Em cima, com seu olhar já não mais decisivo como antes, resolveu cuidadosamente descer...
Já não era tão atraente assim estar ali, saboreando aquilo. Apoiou-se e tentou o equilíbrio. A subida fora mais fácil. Chegou a triste conclusão de que não conseguiria descer sem saltar. Pulou então. Caiu de joelhos ao chão, e descobriu que no fim do prazer de uma subida impensada, haverá sempre a queda inevitada. Sangrou então.

 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

DE SORTE, MORRERIA




Não posso, simplesmente, resistir ao tentador desejo de me afogar em um copo de angústia. Juntar papéis e soltar versos ao vento para mendigos tão desesperados, permanecendo olhando da janela quebrada, no alto do quinto andar. Não posso! Não faz nem meia hora que me fiz juras, e agora arrependo-me de já não cumprí-las. Estou odiando ter de atravessar o corredor que conduz às extremidades do apartamento, onde cruzo com o quandro que pintamos juntos, sentados ao chão de dezembro do ano passado. Naquele dia, começamos ordenadamente, e em apenas quinze minutos de dedicação à arte, usamos os pincéis para pintar também os nossos corpos sobre o carpete vermelho da sala. Naquele momento nos sentimos os mais vadios dos poetas ousados. O suor espalhava a tinta. A gravidade ajudava. Sem falar nas mãos que traziam e levavam até o rosto, quantidades impressionantes de amor. Insuportável estar vivo para lembrar disso como defunto. Imóvel, impotente, cego. Se estar vivo é supremo, pois desta forma resigno-me em lembrar, antes, se justo fosse, de sorte morreria.

 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O DIA DA SUA MORTE



Depois de debruçar-me sequenciadas vezes sobre a minha aguda dor, no intuito fálido de abafar o grito que ela externava, arregalei os olhos vermelhos em fogo de chorar, apanhei o lenço branco enxarcado, caído ao pés, e juntei vagarosamente, uma a uma, todas as fotografias torturadoras, que outrora arrancara de mim tantas alegrias e risos excitantes. Esquentei água para fazer um café forte, preto, amargo, para manter-me acordado, se possível pro resto da vida, pois dormir tornara-se um pesadelo de memórias inquietas, que açoitavam, apunhalavam, e sangravam as feridas abertas. Tomando o café, arquitetei, por diversas vezes, planos, projetos e armadilhas. Tudo vão! Tudo inútil. O telefone ao lado, intacto, imóvel, não respondia a nenhum dos meus estímulos sentimentais. Chuva batia no telhado. Os quadros ao redor, ficaram desfigurados, e a cama, que antes era pequena, agora, tomara proporções continentais, aumentando e acentuando o vazio que existia ali. Dois travesseiros, dois pares de sonho, dois caminhos, dois projetos. Um só adeus e luto.
DESCANSE EM PAZ MEU AMOR!