Eu me permito fluir em versos livres, e não os conduzo a uma estrutura que seja coerente em suas conexões.
Eu os deixo saltar, e ao invés de procurar estilizá-los para um determinado fim, contemplo toda sua essência tal qual se concebe.








sexta-feira, 30 de novembro de 2012

POR QUE TE INVENTARAM?



Saudade é uma palavra que não tem gosto. É um apelo ao tempo para que apresse o seu caminhar. Saudade é chuva e neblina, com rede vazia na lembrança. Chinelos solitários na varanda. Saudade sensibiliza, te comprime o peito, te abre a mente. Saudade é oito da noite de um sábado solitário, é um caminhar na praia no fim de tarde, sem alguém para levar. É natal ...
sem ter a quem presentear. Saudade é acordar sem despertar, vestir-se sem arrumar, comer sem alimentar, viver sem acreditar. Saudade é desepero de chegada, é repudio da partida, é dor acometida. Saudade é como um caixa escupida de vontade, no qual guarda-se bilhetes que nunca mandou, mas que se deseja muito entregar. Guarda-se papel de bombom que nunca foi comido. Foto três por quatro, cartão postal, bilhete de guardanapo, pedaço de um vestido. Saudade é sonhar com a pessoa, de modo indesejado, e odiar-se por ter apenas se alucinado. Saudade te amadureçe, faz você melhorar, só não deve ser longa. É um pouco de um quase tudo, e um passo de um tudo em nada. Saudade é o que nesse momento eu não desejaria ter.
 
 

EM VOCÊ


Noite de fortuna. Riquezas da alma, das teias psicológicas. Noite de aprofundar-se em suas próprias lacunas e preenchê-las. Esvazie-se do que já não mais serve, do que um dia já te preencheu e hoje te seca, apenas. Façamos uma viagem em nós, pelas nossas veias, visitemos cada pedaço do nosso corpo. Parafraseando: Conheça-te a ti mesmo, e então escolha se amar.

 

domingo, 25 de novembro de 2012

VERTIGEM



Não faço a menor questão de ser o centro do universo, mas ser o centro de mim mesmo, dominando meu eixo, isso é indispensável. Não me envaideceria de estar ornamentado com adereços em proporções carnavalescas, mas que em mim haja pelo menos um refletir de um adorno mínimo, e que isso seja suficiente para atrair. Duvido de quem quer que ouse usar máscaras, aumentando ainda mais as, já inúmeras, possibilidades que temos de ser. Gosto de alucinações não premeditadas, desprogramadas e casuais. Contradigo alguns conceitos vãos, e detesto ser prisioneiro do tempo e das pessoas. Caminhar de pés descalços na areia beirando o mar, com cabelos soltos, coração flutuante, olhar de infinito. Gritar! Reunir amigos, rir com eles e deles. Eis o fundamental. Quanto aos embriagamentos da alma, deixo livre a musica, a pintura, e a poesia. Estes, podereis usar em abundância.


 

ENQUANTO ISSO




Pode parecer que eu olho, mas não olho não. Você pode até pensar que eu premedito, mas não premedito não. Você pode pensar que rastejo, mas não sou cobra não. Pode imaginar que ponho a faca nos pulsos, mas não sou suicida não. Pode ser óbvio pensar em te encontrar, mas isso não tem ocorrido não. Era para estar em um mar de não sorrisos, mas sorrio muito então. Não busco respostas do destino, mas você pensa que sim. Não estrategizo armadilhas, caçador é que é assim. Vivo da vontade suprema, apenas. Vivo como se nunca tivesse vivido, mas não como se não fosse viver. Ando sentindo o chão, enquanto achas que não consigo tocá-lo de tanto te querer. Na realidade algo estranho estar, onde era para estar certo, o errado parece chegar. Onde era para ser fundo, é tão raso de nadar. Acorda você, acordo eu, desfaz teu engano que eu desfaço o meu.


 

BELO



Embelezou-me o criador com palavras. Meus olhos atrentes são minhas palavras. Minha boca carnuda, meu perfil alinhando. São palavras o meu abdomen sarado, costas largas em coxas torneadas. Braços e panturrilhas definidos são as minhas palavras. Minha altura e meu bronze nada mais são do que minhas palavras. Atraia-se por mim. Imaginariamente me ame pelo que escrevo, pois restou às minhas palavras a minha beleza, e é justamente por elas que me envaideço.
 


 

 

DIFUSO




Pinguei um furtacor nos meus olhos para ver se eles reaprendem a enxergar colorido novamente. A tua decisão anulou meus colibris, e o preto e branco da decepção assumiu a linha de frente da minha visão.

 


terça-feira, 13 de novembro de 2012

ENSAIO DE VOCÊ

Deixou escorrer ao canto de sua vermelha boca, uma gota perdida de sua saliva veneno, e antes que tocasse ao chão, aparou com suas mãos de veludo, evitando o impacto. Manteve um olhar fixo, e como quem invade a alma de outro alguém, permaneceu a despir com sua visão. Astuta e audaciosa, confundia-me cada vez que me dizia culpas e confissões. O seu corpo era escultu...
ral, e suas formas e contornos, embriagavam-me, sutilmente. Suas pernas eram longíquas. E que belas pernas! Pernas que correram de mim como um diabo que foge da cruz para não queimar-se em purificação dos seus profanos pecados. Surrou a cria de nossas ilusões, e a colocou de joelhos em milhos pontiagudos. Para além do sofrimento, o rendimento de suas preces forçadas, como uma criança desentendida de infundamentada penalidade. Pobre descendência de nós dois. Ainda escuto seu choro. Ainda lamento pela a dor de ter se tornado orfã. E do alto de seu pedestal, contempla a nós, e ainda se julgas pura, imaculada, cândida.
 
 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

OLHOS CEGOS



As supostas cinzas oriundas da queima
Tornaram ainda mais cinza o antigo mundo colorido
Aliaram-se ao, não menos nebuloso, ar que nos recobre
Impedindo que reconhecesse-mos as nossas feições
Para tanto, soprei incessantemente, desejando a dissipação
No entanto, fora isto em vão! Que decepção!
...
As nunces do teu corpo ficaram difusas
E que audácia, as minhas mão intrusas
Em tocar-te veementemente, para se possível lembrar
Como era linda a imagem, que naquele instante
Já não podia mais enxergar.
 
 

ENTALO





Engoli um relógio de cúpula quebrada e ponteiros expostos.
A cada momento que se passa, e com o caminhar dos tais ponteiros, sinto ele agredir-me a garganta onde está alojado, e me sufocar literalmente a cada segundo.